Maratona Oscar 2015

22/02/2015

Em 2015 foram 36 filmes, mas só consegui ver 34. Faltou um animação e o novo filme do Paul Thomas Anderson. Mas mesmo assim já tenho o suficiente pra dar meus pitacos por aqui.

Vi muita gente falando que a safra é ruim, e até acho que a média realmente não é boa, mas uma coisa me animou esse ano: os três principais concorrentes – Birdman, Boyhood e O Grande Hotel Budapeste – são realizações corajosas e muito interessantes a sua maneira.

O que eu escrever aqui é minha opinião sobre os filmes, e tá todo mundo a vontade pra discordar. A discussão é sempre bem vinda.

Vamos nessa!

Os Melhores Filmes do Ano

Sniper Americano é uma patriotada do Clint Eastwood. Eu quase fiquei admirado com a competência dele em construir aquela patriotada e tentar nos convencer que um sujeito que matou mais de 160 pessoas é um boa praça que acredita estar fazendo o bem. Mas ele não me convence, até porque fica complicado achar que numa guerra existem os bonzinhos, que estão nessa numa missão libertadora, e os malvados esquartejadores e matadores de crianças.

Birdman é uma obra prima. Um tremendo exercício narrativo, filmado de maneira brilhante. A ideia de fazer parecer que o filme foi rodado um único plano me deixou embasbacado no cinema. E o roteiro é corajoso por deixar um monte de lacunas a disposição do espectador. Um filmaço que, se tudo der certo, será lembrado pelos próximos anos como um exemplo de que pequenos filmes podem ser sim grandiosos.

Boyhood por sua vez é a coragem de narrar o banal e nos aproximar dessa história, porque essa poderia ser a história de todos nós. O projeto é ousado e a maneira como ele foi feito me deixou ainda mais imerso no mundo do menino que protagoniza o filme. A vida pode ser banal e até ordinária, mas está cheia de dúvidas, tristezas, beleza e reflexões. Doze anos muito bem utilizados pelo Linklater.

Para fechar a trinca das grandes realizações, O Grande Hotel Budapeste aparece como o projeto mais audacioso de Wes Anderson. Mais audacioso porque considero o maior dos seus filmes, e não é fácil fazer um filme grandioso sem perder as características tão marcantes da sua filmografia. Anderson não muda a sua cartilha e mesmo assim nos entrega um filme de fantasia incrível e grandiloquente.

O Jogo da Imitação é um filme sobre uma história muito importante e real. Alan Turing foi um dos cientistas mais importantes do século XX e foi condenado pela justiça inglesa pelo crime de ser homossexual. Discussão importante a beça para os dias de hoje, né? Pena que durante o filme o personagem de Turing apareça mais assexuado impossível, o que confere um distanciamento absurdo do que parece ser uma questão importante para o filme. No fim, acabou inverosímil.

Selma anda pelo fio da navalha. Se ficamos incomodados com o tom maniqueísta do filme, e estão lá os vilanescos personagens do governador do Alabama e do xerife de Selma para ajudar nesse tom, mas não se furta de mostrar um pragmatismo das lideranças do movimento negro, especialmente de Martin Luther King, que não tem pudores de dizer que precisa da violência dos seus opositores para arregimentar apoios à sua causa. O resultado é um tremendo filme sobre uma passagem real que realmente soa como fiel aos seus personagens e fatos.

A bomba da lista é A Teoria de Tudo. Um roteiro pavoroso, com uma estrutura dividida em pequenos arcos que apresentam o conflito e o resolvem quase na mesma cena. No final você fica com a impressão que o filme não tem um grande conflito, tamanha é a pressa em resolver tudo. Não bastasse isso, a direção é exagerada demais. Não merecia estar nessa lista. Não mesmo.

Whiplash é um puta filme. Direção, roteiro, fotografia, montagem e elenco redondinhos, certinhos. Sem falar nos dois personagens principais que são muito aprofundados e complexos, o que dá ao filme um peso ímpar. Ainda fica uma discussão interessante depois do filme, sobre genialidade, abuso e mérito. A melhor surpresa na categoria.

Preferências e Palpites

Melhor figurino

Quem deve levar: O Grande Hotel Budapest

Quem eu prefiro: O Grande Hotel Budapest

Faltou alguém?: A Teoria de Tudo

Esse é barbada. O caminhão de indicações indica que a academia “descobriu” Wes Anderson e seu mundo maravilhoso. E esses prêmios vão ser de consolação, já que Budapeste não vai papar nada além das categorias técnicas. Embora seja ruim, o figurino de a Teoria de Tudo é muito eficiente, especialmente na caracterização do protagonista.

Melhores efeitos visuais

Quem deve levar: Interestelar

Quem eu prefiro: Interestelar

Faltou alguém?: Não. Tem até gente demais.

Convenhamos, hoje em dia um filme pra merecer esse Oscar tem que apresentar algo que pelo menos pareça novo. Não dá pra premiar efeitos que são apenas corretos dos filmes de heróis. Os macacos já nos deixaram embasbacados há uns anos. Fico com o buraco negro, porque é assim que deve ser por dentro um buraco negro.

Melhor mixagem de som e edição de som

Quem deve levar: Sniper Americano

Quem eu prefiro: Birdman

Faltou alguém?: Caminhos da Floresta

Embora sejam coisas bem distintas, juntei as duas categorias aqui porque as explicações delas são quase a mesma. Da maneira como foi filmado, Birdman precisava de um trabalho de som que fosse perfeito, e ele é. Mas a academia curte filme de guerra na categoria. Caminhos da Floresta é um musical que tecnicamente funciona.

Melhor maquiagem e penteado

Quem deve levar: O Grande Hotel Budapeste

Quem eu prefiro: Foxcatcher

Faltou alguém?: Caminhos da Floresta

Mais um prêmio técnico merecido. Sim, Tilda Swinton está irreconhecível em Grande Hotel Budapeste, mas Steve Carell está reconhecível e completamente diferente (e não é fácil fazer um cara simpático como ele parecer assustador). Isso sem mencionar as orelhas deformadas dos lutadores. Caminhos da Floresta tem algumas transformações divertidas e que mereciam uma indicação.

Melhor trilha sonora

Quem deve levar: O Grande Hotel Budapeste

Quem eu prefiro: O  Grande Hotel Budapeste

Faltou alguém?: Birdman

A trilha de Grande Hotel é rica, cheia de variações e acompanha muito bem o filme sem forçar a barra (ou como dizem, “comentar” o filme). Mas porra, deixar de fora uma trilha sonora quase toda composta para bateria foi triste.

Melhor design de produção

Quem deve levar: O Grande Hotel Budapeste

Quem eu prefiro: O Grande Hotel Budapeste

Faltou alguém?: Birdman

O Grande Hotel Budapeste vai ganhar aqui pelo mesmo motivo que vai ganhar em figurino e tem minha preferência pelo mesmo motivo. Faltou Birdman e cada um dos seus cenários ricos pra cacete em detalhes nessa lista.

Melhor Montagem

Quem deve levar: O Grande Hotel Budapeste ou Whiplash

Quem eu prefiro: Whiplash

Faltou alguém?: Não me ocorreu ninguém

O grande prêmio do filme de Wes Anderson (ou talvez um dos dois, porque ele pode levar fotografia também) e merecido. Whiplash é meu preferido por uma questão de gosto apenas. Se qualquer um dos dois ganhar tá ótimo.

Melhor fotografia

Quem deve levar: Birdman ou O Grande Hotel Budapeste ou Ida (ou seja, não tenho ideia)

Quem eu prefiro: O Grande Hotel Budapeste

Faltou alguém?: Whiplash

O favorito é Birdman porque não é pra qualquer um pilotar a câmera como o Lubezki faz (e ele já provou isso pra gente em Gravidade), mas pesa contra ele o fato de ter ganho ano passado. Ida é preto e branco e isso já é o suficiente pra cacifar o filme pra academia. O Grande Hotel Budapeste tem a minha preferência porque é o trabalho mais arrojado de fotografia de um filme do Wes Anderson, e isso não é pouca coisa, porque exige a coragem de usar uns filtros e palhetas de cores impensáveis, mas fazer ficar orgânico. É, na minha opinião, o maior mérito do filme, e acho que isso fala muito sobre o quanto eu gostei da fotografia.

Melhor filme estrangeiro

Quem deve levar: Ida

Quem eu prefiro: Tangerines

Faltou alguém?: Dois dias e uma noite

Ida vai levar porque é um filme que bate ao mesmo tempo na antiga União Soviética e no Holocausto. Relatos Selvagens corre por fora, mas acho que bem por fora. Meu coração vai bater mais rápido se Tangerines ganhar porque ele é daqueles filmes que eu nem saberia que existe se não fosse indicado e que fazem a maratona valer a pena. Tangerines tem um roteiro simples mas muito bem amarrado, trata de um tema delicado sem ser piegas, e tem um final arrebatador. Tangerines é daqueles filmes que quanto mais você pensa a respeito, mais você gosta dele.

Melhor longa de animação

Quem deve levar: Operação Big Hero

Quem eu prefiro: Como Treinar o Seu Dragão 2

Faltou alguém?: O Menino e o Mundo

Nessa categoria não vi um indicado, Song of the Sea, mas acho que dá Disney. O que seria injusto, porque Como Treinar o Seu Dragão 2 já merecia um prêmio desde o primeiro filme, não só pelas qualidades técnicas, mas pela mensagem e pela coragem do final. A continuação não deixa a peteca cair e eu fiquei criança assistindo.

Mas aqui tem um parágrafo especial pra falar da animação brasileira O Menino e o Mundo. Eu não sou sujeito que me ufano com qualquer filme brasileiro, mas esse é especialmente maravilhoso. Se o cinema é a forma a serviço do conteúdo eu vi poucas vezes uma animação tão inteligente quanto esse filme. E olha que nem comecei ainda a falar das qualidades dele em si, seu design de produção inventivo dentro do tom lúdico do filme, a coragem do roteiro em abrir mão dos diálogos, a trilha impecável. Um filme raro de se ver no cinema e que merece a sua atenção. Vá ver agora!

Melhor atriz coadjuvante

Quem deve levar: Patricia Arquette

Quem eu prefiro: Patricia Arquette

Faltou alguém?: Kristen Stewart em Para Sempre Alice

Patricia Arquette é a mãe que leva uma vida dura, consegue criar os filhos sabe lá como e no final fica com o maior dos ônus da maternidade, mas nunca se ressente disso. Se Boyhood é sobre o ordinário da vida real, nada é mais real que a atuação dela. Mas muita atenção a Kristen Stewart, que consegue fazer um par com Julianne Moore sem os não só sem os maneirismos que fizeram a gente implicar com ela, mas dando suporte a atuação da protagonista quase que a complementando.

Melhor atriz

Quem deve levar: Julianne Moore

Quem eu prefiro: Julianne Moore

Faltou alguém?: Não sei

Julianne Moore faz o tipo de papel que a academia gosta de premiar, o do sujeito que adoece e definha. Só que ela interpreta um paciente de alzheimer e é de uma sutileza inacreditável. Você acompanha o avanço da doença através da maneira como ela olha para as coisas, e de como o brilho dos olhos dela vai desaparecendo. É tocante.

Melhor ator coadjuvante

Quem deve levar: J. K. Simmons

Quem eu prefiro: J. K. Simmons

Faltou alguém?: Channing Tatum em Foxcactcher e Tony Revolori em Budapeste

Assistam Whiplash e me expliquem como conseguimos acreditar que o monstruoso personagem de Simmons é capaz de chorar uma morte na frente de uma turma que ele trata como lixo e na cena seguinte voltar a tratar a turma como lixo sem com que você ache estranho isso. Muito da complexidade do personagem aparece na atuação. Senti falta de Channing Tatum, de quem eu particularmente não gosto como ator, mas que está muito bem em Foxcatcher e de Tony Revolori, que faz uma parceria maravilhosa com Ralph Fiennes em O Grande Hotel Budapeste.

Melhor Ator

Quem deve levar: Eddie Redmayne

Quem eu prefiro: Michael Keaton

Faltou alguém?: Ralph Fiennes em Budapeste, David Oyelowo por Selma e talvez Jake Gyllenhaal em O Abutre

Redmayne vai ganhar porque faz aquele tipo de papel que a academia gosta, mas não me comprou. Michael Keaton interpretou uma versão dele mesmo que é mais interessante que ele mesmo em todos os outros filmes da sua cerreira, e é preciso coragem pra aceitar esse papel porque exige desprendimento das vaidades que são tema de Birdman. A escalação dele já era um trunfo e ele abrilhanta ela com uma atuação espetacular.

Melhor roteiro adaptado

Quem deve levar: O Jogo da Imitação ou A Teoria de Tudo

Quem eu prefiro: Whiplash

Faltou alguém?: Não sei

Não vi Vício Inerente, então dos que eu vi acho que Whiplash sobra. Porque O Jogo da Imitação é qualquer nota 6, A Teoria de Tudo é pavoroso (e não entendo esse roteiro ser considerado um dos dez melhores do ano) e Sniper Americano tem problemas seríssimos no desenvolvimento dos personagens e é maniqueísta. Whiplash é um tremendo roteiro.

Melhor roteiro original

Quem deve levar: Birdman

Quem eu prefiro: Birdman

Faltou alguém?: Selma

Barbada. Birdman sobra e muito diante dos concorrentes, de tal forma que não vai ter como não rolar pra ele o prêmio. O Grande Hotel Budapeste corre por fora, mas o filme vai ter que se contentar com os prêmios técnicos.

Melhor diretor

Quem deve levar: Alejandro González Iñárritu por Birdman

Quem eu prefiro: Alejandro González Iñárritu por Birdman

Faltou alguém?: Damien Chazelle por Whiplash

É quase como em roteiro. O trabalho do Iñárritu é bom demais e diferente demais dos seus concorrentes. Mesmo concorrendo com Wes Anderson e Richard Linklater ele sobra, e isso não é pouca coisa. Uma pena terem deixado de lado Chazelle.

Melhor filme

Quem deve levar: Birdman

Quem eu prefiro: Boyhood

Faltou alguém?: Foxcatcher (por uma questão de coerência, afinal foi indicado a roteiro e direção)

Forrest Gump é meu filme preferido. Um dia um amigo me perguntou como eu me sinto em relação ao Oscar de 96, em que Pulp Fiction perdeu para Forrest Gump. Eu disse a ele que Pulp Fiction é aquele mulherão que a gente vê passar, acha maravilhosa e cita como referência de mulher bonita, mas que Forrest Gump é a mulher por quem a gente se apaixona e quer passar o resto da vida.

Essa explicação simples é pra dizer que Birdman é um tremendo filme. Disparado melhor que seus concorrentes, mas que Boyhood entrou pro seleto grupo de filmes que me fazem chorar em cada audiência, e ainda por cima é um grande filme também. Meu coração é teu, Linklater. É com teu filme que eu quero namorar, casar e viver feliz para sempre.

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Todos os pregos do meu caixão

13/01/2014

Em julho de 2014 eu completo 14 anos de um relacionamento conturbado. Não posso chamar de caso, porque há pouca paixão envolvida. Não posso chamar de amizade, porque minhas referências de amizade são muito mais saudáveis. Acho que dá para falar em parceria, porque ninguém fica junto tanto tempo se não por isso.

Em julho vai fazer 14 anos que eu dei o meu primeiro trago em um cigarro.

Eu sempre digo para as pessoas não fumarem. Cigarro faz mal, diminui a sua capacidade respiratória, te expõe ao risco de sofrer inúmeras doenças, te faz ficar fedendo a cigarro e, nos tempos de hoje cada dia mais, te torna um tipo de pária social. Se você nunca fumou, não entra nessa. É roubada, e sair é uma merda.

Eu não quero sair. Não hoje. Eu me sinto sempre acompanhado quando estou com um cigarro. Fumar me acalma, me faz clarear as ideias e me distrai. Quando chamo o cigarro de parceiro, é porque me sinto exatamente assim que me sinto: juntos conseguimos ser razoavelmente produtivos, mas no fundo um está fodendo o outro de alguma forma. E eu sou um fumante educadinho. Não fumo dentro de lugares fechados, evito fumar perto de crianças ou quando tem alguém por perto comendo. Tenho sempre meus cigarros, para não ter que pedir a ninguém.

No último período da faculdade pude ler um texto muito bacana que me ajudou a diminuir a culpa que eu sentia por fumar. Definitivamente eu não sou o tipo de sujeito que leva uma vida saudável, e o cigarro é só parte disso. Eu fiz uma escolha, e ela pode não ser racional para você, mas afeta diretamente a mim. Entendo quem fica triste com a minha escolha, mas eu ficaria bem mais feliz se você entendesse, afinal, eu não fico reclamando da quantidade absurda de sódio, sal, açúcar, gordura ou agrotóxicos que você ingere todo dia.

Eu vejo a vida melhor por detrás daquela névoa cinza azulada.

(Eu só precisei de um cigarro para escrever esse textinho)


Medo da morte

12/01/2014

Pensando na minha lista de medos, me dei conta que não coloquei lá o medo da morte.

Eu não tenho medo da morte. Tenho medo de acabar antes de fazer o que eu acho que tenho importante para fazer, como se eu estivesse predestinado a algo. Talvez a arrogância de achar que eu tenho pela frente um grande destino me faça não ter medo da morte.

A morte é o inevitável fim que dá sentido a vida. É por saber que vamos morrer um dia que queremos sempre mais, no máximo e agora. O grande problema é viver num mundo onde ou você é contaminado com a ideia de predestinação, ou uma necessidade de realização que nem sempre condiz com que a pessoa deseja.

Eu até tenho uma lista de coisas que eu gostaria de fazer antes de morrer, mas seria irrelevante me preocupar com ela. Não vou me frustar depois de morto afinal, eu vou estar morto.


Lista do medos

06/01/2014

Eu tenho um monte de medos. Muitos mesmos. Algum são facilmente compreensíveis, outros eu não sei como explicar. Vou listar os principais aqui, e deixo a caixa de comentários para quem quiser mais detalhes.

  • Altura
  • Andar de avião
  • Ratos de qualquer tipo
  • Sentir qualquer tipo de dor
  • Ficar muito tempo sozinho em mar calmo (começa a tocar o tema de Tubarão na minha cabeça)
  • Ficar sem cigarros, especialmente quando estou bebendo
  • Ir trabalhar com a roupa inadequada (eu tenho pesadelos recorrentes com isso)
  • Correria em volta de piscina
  • Praticar qualquer esporte radical
  • Medo de ser atropelado

Acho que esses são os principais.


Conto bobo [II]

05/01/2014

O Pupilo respirou fundo, abaixou a cabeça e fitou seus joelhos dobrados e pernas cruzadas. Voltou a olhar na direção do Mestre e só conseguiu dizer “Mas como?”.

O Mestre também respirou fundo, mas sua respiração não poderia ser mais diferente que a do rapaz. O Pupilo bufou e respirou pesadamente, como se dentro de si houvesse um mar em pavorosa ressaca, arrebentando ondas furiosamente na praia. A respiração do Mestre era suave como um pequeno córrego. O modo como um homem respira diz muito sobre como ele se sente.

“Entenda que a vida é um grande acordo. Estamos diante de um universo de convenções. Escolhemos acreditar que as coisas são como elas são, mas esquecemos que na verdade o que vemos está filtrado por aquilo que chamamos de percepção.”

“Mestre, então podemos perfeitamente dizer que o universo existe, porque todos podemos percebê-lo. Mesmo um homem privado de um ou outro sentido é capaz de sentir o que está ao seu redor.”

“Mas jovem, você fala de um universo percebido por uma pessoa, porque cada indivíduo, cada consciência, vai ter a sua própria interpretação para o que está vendo. Por isso digo que o universo percebido é uma convenção.”

“Mestre”, e a essa altura o pupilo começava a se exaltar, “eu afirmo que há ao meu redor um universo. Posso ver o verde das folhas naquela árvore, posso sentir a textura da grama que toca meus pés, posso sentir o vento quente e úmido em meu rosto. O senhor pode não estar sentindo, mas eu estou, e afirmo que tudo isso existe realmente”.

O Mestre se permitiu rir de maneira afável para o Pupilo. Amava-o como um pai ao seu filho. Encontrava grande prazer em poder ensinar ao menino o que sabia.

“Ora”, disse o ancião ainda sorrindo, “você não se acha presunçoso demais ao afirmar que uma verdade que apenas você vê é a única verdade possível?”.

“Mas não foi isso que eu disse.”

“Mas é assim que me parece. Você adotou a sua opinião como a verdade do mundo.”

“Mas se estamos falando de um universo particular, por que ele não pode ser sustentado sobre as minhas verdades?”

“Ele pode, não posso negar. Mas num universo em que todas as verdades foram estabelecidas por um único indivíduo, que espaço há para a troca, para o aprendizado?”

O Pupilo apenas olhou para baixo, acenando levemente, concordando com o Mestre. Àquela altura, começou a chorar baixinho.

“Quando vim para cá escolhi deixar amigos, posses materiais e o convívio com minha família. Abandonei tudo o que eu tinha, e escolhi buscar o conhecimento que me proporcionaria a felicidade. Agora tenho ainda menos do que tinha quando cheguei aqui.”

“Sim, Pupilo. Eu entendo a sua dor.”

“Como ser feliz sem nada, Mestre? Que caminho trilhar se não tenho mais nada em que acreditar?”

O Mestre sorriu gentilmente, sabia que ele aquele seria o ensinamento mais importante, mas também o mais doloroso que ele teria de passar ao seu discípulo.

“É apenas depois de perder tudo que estamos livres para entender que mais importante que os destinos, são os caminhos.”

Inspirado pela vida, pelas leituras que andei fazendo e pelas conversas que andei tendo. E por Tyler Durden.


SWU é para jacu – parte 4

02/01/2014

Eu sou um sujeito cético. Desconfio de fenômenos misteriosos que as pessoas dizem testemunhar, e até desconfio de certas ciências. Mas jamais esquecerei o que meus olhos viram naquela noite. Quando o Rage Against the Machine subiu ao palco, eu vi um homem ficar invisível.

Recapitulando: litros de chimarrão, café, energético e comprimidos de guaraná proporcionaram ao Bill a maior ingestão de cafeína que alguém pode tomar de uma vez. A energia era tanta, que ele começou a vibrar muito rápido, tão rápido que ele simplesmente desapareceu. Eu poderia dar a explicação física sobre como ele passou a vibrar numa frequência que o olho humano não captava, mas a verdade é que naquele momento Bill estava transitando entre diferentes planos da existência.

O grande problema é que quando ele reaparecia no nosso plano, ele acabava esbarrando nas pessoas que tentavam assistir o show. Então passei boa parte do show me desculpando com quem estava em volta. E sem necessidade, porque quase todos estavam tomados pela comoção de presenciar um fenômeno único e fantástico.

Quando o show acabou, Bill parecia menos energizado, e demos uma volta pelas belíssimas instalações do evento. 5 minutos depois desistimos e resolvemos ir embora. Assim que sentou no carro, Bill desmaiou de sono. Eu me ocupei de ligar para hotéis e pousadas da região. Para tentar conseguir onde dormir.

Sim, foi exatamente isso que você entendeu. Era madrugada, estávamos a quinhentos quilômetros de casa, e não tínhamos a menor ideia de onde iríamos dormir.

Liguei para os hotéis, pousadas, motéis, pensionatos e puteiros da região, mas nenhum deles tinha vaga. Ora, longe de nós desprezar a portentosa Itu, mas não dava pra achar que a rede hoteleira da cidade desse conta de um evento daquele porte, mesmo que o evento tivesse um camping sustentável onde você podia pagar R$ 6,00 por uma garrafinha (de plástico) de água mineral.

Com a sua calma característica, Tiozão proferiu pela primeira vez aquela frase que seria ouvida novamente naquela noite: “agora fodeu a porra toda”. Mas Bill subitamente acordou e disse com um tom que nos encheu de coragem: “te acalmem, pombas! Vamos para São Paulo, acharemos um hotel lá”.

Ele só não contava que talvez fosse tão difícil achar São Paulo.


Resolução de ano novo

01/01/2014

Eu vou voltar a escrever. Sério. Pára de rir, eu não estou brincando. Tá duvidando, né?

 

Então tá.