A doce vingança do pretenso enganado

24/07/2009

Há alguns meses eu tive minha carteira furtada. Estávamos a Garota e eu andando pelo centro do Rio, e um pilantra de mão leve abriu a bolsa de fora da minha mochila e surrupiou minha carteira. Eu sei que foi uma grande bobeira da minha parte deixar a minha carteira em um lugar de tão fácil acesso. Fui descuidado e acabei pagando caro, na minha carteira furtada estavam todos os cartões de bancos e boa parte dos meus documentos. Fiquei sem eles em um período em que eles eram fundamentais.

Eu amaldiçoei o ladrão por algumas noites, mas foi tudo o que eu pude fazer.

Desde então, não tenho mais carteira. Mal ando com documentos e cartões, e quando preciso levá-los para a rua, ponho tudo junto da carteira de identidade. Não é o melhor jeito de organizar seus documentos, ás vezes eu temo que os cartões deem defeito, mas uso assim pela praticidade e pela preguiça.

Essa semana, eu estava andando pelo Centro do Rio, mais ou menos na mesma área em que fui roubado. Minha mochila pendurada nas costas da mesma maneira que no fatídico dia. Estava mais atento que naquela ocasião, mas não o suficiente para estar tenso. Era uma simples caminhada atrás de um cabo pro laptop, ora bolas.

Era uma simples caminhada até ser abordado pelo vendedor.

Ele vendia uma daquelas pomadas para contusões que vêm numa latinha. Um Gelol genérico numa lata semelhante a de Vick Vaporub. Me abordou com um sorriso simpático, me perguntando se eu não lembrava dele. Eu sou um excelente fisionomista, mas preferi fingir que lembrava dele, e que acreditava naquele papo de “Você ainda está lá na firma?” e “Depois que fui mandado embora tô defendendo o meu aqui.”

Quando ele começou a falar das maravilhas do produto dele, eu senti alguém tocar a minha mochila, e finalmente matei a minha dúvida. Quando o sujeito começou o seu óbvio migué, eu fiquei em dúvida entre malandragem de vendedor e artimanhas de gatuno. O toque na mochila foi a minha resposta. Eu estava para ser furtado.

Enquanto o vendedor falava sobre as maravilhas do seu produto, e que fazia questão que eu levasse uma latinha de graça para fazer propaganda, a mão continuou tateando pela bolsa de fora da minha mochila, procurando em vão por algo de valor que pudesse encontrar lá. Exceto por umas moedinhas que eu guardo numa embalagem de Cebion, não havia nada ali que valesse um tostão furado.

Quando o sujeito me passou a latinha, eu subitamente trouxe a mochila para frente do corpo, na intenção de guardar o produto na mochila, e reparei que a bolsinha de fora estava aberta. O vendedor se assustou com a minha reação e sugeriu me dar também uma pomadinha que melhoraria meu desempenho sexual. Eu neguei, achei melhor parar a brincadeira por ali, antes que ficasse perigoso para mim.

Quando me despedi do sujeito (com direito a um meio abraço e tudo) ele me pediu um “guaraná para dar uma força”. Apenas levantei o bilhete do metrô e disse que só tinha aquilo, que sem ele não teria como voltar para casa, mas que eu voltaria com uma dúzia de clientes para o produto dele, todos “lá da firma”. Virei minhas costas e saí em um passo apertado, levando na mochila a pomadinha esquisita do sujeito.

Naquele momento me senti o sujeito mais esperto do mundo. Não que aquele tivesse sido o mesmo sujeito que me roubou meses atrás. Muito menos achava que aquela pomadinha tosca valesse um décimo dos perrengues que passei pelo furto. Só que eu tinha aprendido a lição. Mais do que isso, eu me antecipei aos gatunos e dei um contragolpe, que não me valeu grandes ganhos materiais, admito, mas que me proporcionou um dos mais plenos sentimentos de vingança realizada que já tive na vida.

Enquanto eu caminhava para o Metrô, me lembrei de uma música do Jorge Ben em que ele diz que “Se malandro soubesse como é bom ser honesto, seria honesto só de malandragem”. Assoviei o samba baixinho, a latinha na mochila, e um sorriso maroto no rosto, típico de quem acabou de dar uma bela sacaneada em alguém que merecia.

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Update: enquanto escrevia o post, a Garota me manda uma mensagem dizendo que comprou uma carteira. A minha vingança foi na hora certa.

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O novo endereço e a incompetência do escriba

23/07/2009

Há algumas semanas eu vinha pensando em mudar o url do blog. Na última terça, dia 21 de julho eu finalmente comecei a fazer a mudança. Foi quando começou o inferno.

Sem entender direito como funcionava a importação do WordPress, apaguei o blog na url antiga antes de fazer a importação para o endereço novo. Como resultado, todo o blog antigo se perdeu.

Não fosse pelo cache do Google, todos os textos estariam perdidos. Eu confiava tanto no WordPress, e era tão relapso, que não tomei o cuidado de guardar pelo menos os textos dos posts. Não fosse pela ajuda dos amigos Bill Savanna, El Mamut e um outro que lê mas não comenta no blog, todas as bobagens escritas até então estariam perdidas graças a uma burrada.

Triste mesmo foi ter perdido todos os comentários que foram feitos aqui. Esses não tive como salvar. Espero que os comentaristas entendam que jamais houve desprestígio, foi incompetência minha. Cada comentário nesse blog foi recebido com muito carinho, e respondido sempre que houvesse a necessidade. Vai continuar assim, mas agora prometo que os comentários não serão perdidos novamente.

Não sei se vai servir de consolo, mas eu chorei por dez minutos no chão da sala, em posição fetal, por ter feito a lambança que fiz. Mas preferi levantar e começar tudo de novo, mesmo que fosse do zero, e vale ressaltar que o apoio do El Mamut via msn foi fundamental.

Vamos voltar a programação normal? Ótimo! Apenas para reiterar, este signatário será eternamente grato a Bill Savanna, El Mamut, e ao Leitor Oculto pela valiosíssima ajuda na recuperação dos posts perdidos.

Agora é vida que segue.


Carta de apoio a José Sarney

23/07/2009

Caro senado José Sarney,

Eu tenho acompanhado com o olhar um pouco distante as pancadas que o senhor e sua família têm recebido, por conta de esquemas estranhíssimos, nepotismo, atos secretos e o tipo de bandalheira sobre a qual não vou entrar em detalhes. Cada uma dessas pancadas é merecida, um homem na sua posição, com mais de cinquenta anos de vida pública, político da situação, seja qual for a situação, tem mais é que aprender a não incorrer em sacanagens amadorísticas, tampouco deixar a família fugir do seu controle e aprontar sem o seu consentimento.

Como era de se esperar, todo mundo por aí começou a pedir sua cabeça. Querem que você deixe não só à presidência do Senado, mas também o seu cargo vitalício de senador. A pressão é forte na mídia, na opinião pública e até no twitter, onde surgiu um movimento que deve ter tirado seu sono, dado o engajamento e o poder de mobilização dos envolvidos.

Mas eu não engrosso esse coro, senador. Estou aqui para dizer que acho que o senhor deve sim, continuar na cadeira de presidente do senado, um coro que não partiu de uma iniciativa minha, e não é de todo original, admito, mas do qual faço parte de bom grado.  Que fique claro aqui, que minha preocupação não é, como no caso do presidente Lula e de uma parte do PT, com a governabilidade. Eu apenas gostaria de lembrar que isso seria um fim ótimo para a sua biografia.

Zé Sarney, fica aí! Fique, mas ligue o ventilador, levante os tapetes para que a sujeira apareça, vá ao arquivo morto da casa (e talvez da República inteira) e apanhe os sacos de merda. Fique, mas dê nome aos bois, diga como cada senador corrupto se aproveita do dinheiro público, mostre como e por que cada funcionário do senado foi parar lá, chame Agaciel Maia e diga a ele que o tempo do silêncio acabou e que nada mais há a temer. Não poupe nenhum senador, seja qual for o partido. E não mantenha sua devassa restrita ao Senado, eu sei que o senhor é bastante influente na Câmara dos deputados, e que conhece pontas soltas o suficiente para começar a limpeza da casa nos moldes da que estaria sendo promovida no senado.

Faça mais. Vá aos demais poderes da República e exponha suas mazelas. Mostre onde se esconde cada conduta irregular que o senhor possa conhecer no poder executivo e seus ministérios de nomeações infinitas. Abra a caixa-preta do poder judiciário e saque do bolso todos os juízes que você puder, em todas as esferas da justiça. Não permita que sobre um só grão de irregularidade entre todas as que o senhor conhece. Traga à luz, tudo de podre alojado no lado escuro da república.

Eu sei que para isso, você terá que cortar na própria carne. Então comece pela sua família. Diga a sua filha, para renunciar ao Governo do Maranhão, estranhamente dado a ela de presente por uma decisão judicial. Diga aos seus filhos que cortem qualquer relação estranha com empresários malandros, e aos netos que procurem um emprego na iniciativa privada. Transfira seu domicílio eleitoral para o Maranhão, de onde o senhor nunca se mudou, e devolva ao Amapá a cadeira no Senado que lhes é de direito.

Não alimente ilusões sobre a sua biografia. Começou sua carreira política na UDN, foi parar na ARENA, quando a ditadura caiu o senhor foi pro PDS e hoje está no PMDB. Todo mundo sabe que o Maranhão é um estado refém da sua família. “Coronelismo”, “fisiologismo”, “nepotismo” e “clientelismo” são lugares-comuns em qualquer ponto da história política dos Sarney. E uma coisa que eu gosto sempre de lembrar, o senhor sempre foi situação, independente da alternância de poder.

Acha que estou pegando pesado? Se eu começar a falar do seu governo, Plano Cruzado, congelamento de preços, Plano Bresser, Plano Verão, moratória e aquelas histórias esquisitas sobre as obras de construção da Ferrovia Norte-Sul, talvez fique pior. É para continuar falando disso, ou o senhor acha melhor parar?

Senador, o senhor está com 79 anos, já não pode mais achar que vai durar muito tempo. Se quiser fazer alguma coisa para salvar a sua biografia, a hora é agora. Se você fizer metade do que eu te propus aqui, já vão esquecer seu passado. Se você fizer tudo que foi sugerido, provavelmente vão mudar o nome do Maranhão para Sarney, dezenas de milhares de escolas vão passar a se chamar José Sarney, vão criar alguma medalha de honraria de altíssimo grau com seu nome, biografias te retratarão como um herói e na adaptação para o cinema um galã vai lhe interpretar,  vão trocar a estátua de Machado de Assis na ABL por uma sua, maior e mais brilhante e sua cadeira será a mais desejada por qualquer escritor, seja ele quem for.

Não pense que não contei com a possibilidade do povo simplesmente não esquecer seu passado, contei sim. Mas se com uma ficha corrida dessas o nobre senador e sua família mantêm-se no poder, seja no Maranhão, ou usando uma cadeira tomada do Amapá, não vai ser quando realmente agir em prol do povo que será abandonado. Quem o manteve no poder enquanto o senhor os atraiçoava, vai ter muito prazer e cobri-lo de glórias quando o senador assim o merecer.

Mas se não gostou da minha sugestão, fica difícil te defender. Melhor levantar dessa cadeira, reunir a família toda e conduzir todos para fora da cena, longe dos olhares de um povo que um dia ainda vai aprender de que barro você é feito, José Sarney.

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Originalmente publicado em 17 de julho de 2009.


A Questão Divina

22/07/2009

A questão da religiosidade e da crença em Deus tem me incomodado um pouco ultimamente. Na maior parte das vezes eu prefiro simplesmente não manifestar minha opinião. Não é incomum que pessoas religiosas ou mesmo crentes em um Deus com os três O’s (onisciência, onipotência e onipresença) se ofendam quando alguém discorda do modo como eles veem a questão divina. Mas para cada silêncio educado, mais um tempo eu tinha para pensar a respeito, e agora eu acho que finalmente cheguei a algum lugar.

Até há pouco tempo eu acreditava que não havia um deus com os três O’s, mas sim uma força da natureza que determinava os eventos que dependiam do acaso. Como no fundo são todas grandezas físicas, como a gravidade e o tempo eu achava que essas forças eram o deus, uma espécie de força que regia o universo com cordões invisíveis, mas que não tinha consciência sequer da sua própria existência. E a fundamentação dessa idéia maluca passa pela teoria do Big Bang. Qualquer detalhamento disso vai entrar numa discussão amalucada que eu não quero ter, por uma razão bem simples, mas que vai gerar discussão por um longo tempo.

Me decidi pelo ateísmo.

Para crer nas forças do universo como eu tava fazendo e me dar ao trabalho de dar a elas o nome de deus, é melhor simplificar e partir do princípio que Deus simplesmente não existe. Roubando a idéia do Carl Sagan, aplico o princípio da Navalha de Occam para explicar o fenômeno da existência divina. Qualquer coisa que eu disser para explicar minha decisão será redundante. Deus não existe, o universo é mais simples sem a existência d’Ele.

Nunca foi meu forte sofrer ante a perspectiva de um castigo divino. Nunca tive medo do inferno. Sempre acreditei que o inferno somos nós, seres humanos. De uns tempos para cá, reencarnação me soava esquisito, como uma necessidade humana de manter-se vivo, de permanecer eternamente vivo, mesmo que em outra vida. Nunca acreditei em astrologia, na verdade nunca acreditei em nenhum tipo de esoterismo.

Vou continuar me permitindo usar expressões como, “meu Deus!” ou a clássica “Jesus me chicoteia!”. Não vejo razão para parar de usar o nome de Deus só porque não acredito que ele exista. Uso “puta que pariu” mesmo quando estou diante de algo que não foi parido por uma puta, ou mesmo “foda-se”, sem querer que nada se foda (se você não usa “foda-se” como interjeição, recomendo já!).

Na prática, pouca coisa vai mudar. Não me torno imoral por ser ateu. Continuo sendo o mesmo bom rapaz de sempre. Só me permiti aproveitar a estada do Richard Dawkins no Brasil e sair de vez do armário das crenças sem propósito. Para mim, Deus não está lá, e quem quiser achar que Ele está em algum, que seja feliz assim.

Só não me venha catequizar, porque eu posso parecer bastante cético, mas não duvido jamais dos efeitos de palavrões bem ditos.

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Originalmente publicado em 08 de julho de 2009.


Conjectura Boba (VI)

22/07/2009

E se o avião que transportava os Mamonas Assassinas não tivesse caído?

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Originalmente publicado em 06 de julho de 2009.


Conjectura Boba (V)

22/07/2009

E se os judeus tivessem absolvido Jesus e mandado Barrabás para o inferno?

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Originalmente publicado em 04 de julho de 2009.


Tico ficou de mal comigo

22/07/2009

A história é longa.

Durante o último jogo da seleção, o Ashton Kutcher (@aplusk) deu uma sacaneada no Twitter enquanto a seleção americana ganhava o jogo. Quando o Brasil virou, os brasileiros começaram a sacanear o cara e mandaram ele chupar. Foi o @christianpior quem levantou a idéia de colocarmos o #Chupa no trending topics do Twitter. Ashton Kutcher, demonstrando ser um cara bem humorado, não só participou da conversa, como também convocou a patroa, Demi Moore (@mrskutcher), para a campanha. Enfim, tem um resumo melhor aqui.

O que me leva a pensar que por um instante, Demi Moore e eu estávamos atuando juntos em uma mesma causa. Quem diria que um dia eu estaria tão próximo dela?

Há algumas semanas o #forasarney tá rolando no Twitter. Mas no começo dessa semana uns manés, que foram maravilhosamente chamados de “subcelebridades” se apropriaram do movimento para eles e tentaram fazer o #forasarney entrar no trending topics do Twitter. Eu poderia narrar como se deu a tentativa e como ela acabou frustrada, mas o xará Lucas Pretti fez isso melhor do que eu faria.

Eu poderia então, debochar sumariamente deles, mas o Cardoso fez isso com maestria que eu jamais teria.

Depois desse papelão, outras subcelebridades resolveram convocar, via Twitter, todos os indignados “comtudoissoqueestáaí” para diversas manifestações em todo Brasil. A frente dessa nova patota de “quase famosos”, Tico Santa Cruz. Durante a mobilização, Bruno Gagliasso, demonstrando grande familiarização com a ferramenta, divulgou seu telefone para todos os usuários que o seguiam.

E a manifestação? Bem, a manifestação não foi lá grandes coisas. Talvez os líderes do movimento tenham superestimado a sua capacidade de mobilização pela fama. No Rio, foram vinte e seis (escrevi por extenso para parecer mais) pessoas.

Diante do fiasco da manifestação, Tico Santa Cruz ficou revoltado e resolveu chamar todo mundo de acomodado no Twitter. Ora, não confunda um acomodado com um pragmático. Se ele deixasse de se comportar como um rebelde sem causa, um ativista das causas intermináveis, e procurasse ações que realmente levassem a construção de alguma coisa, ele entenderia a minha posição. Ideias não constroem prédios. Palavras de ordem só geram perdigotos.

Fiquei indignado sim. O sujeito não me conhece, está visivelmente desorientado e vem me chamar de acomodado. No auge da minha irritação mandei para ele uma pergunta, um questionamento, nada que ofendesse:

É, eu sei, faltou um ponto de interrogação.

É, eu sei, faltou um ponto de interrogação.

Depois disso ele me bloqueou. Sem perceber, Tico Santa Cruz assinou embaixo do que eu vinha dizendo até ali, que faltava maturidade política ao país, que não adianta apenas ir para as ruas gritar, que tem de haver diálogo dentro da sociedade e da sociedade com o poder público. O grande problema foi que Tico acabou também assinando seu atestado de tolo. Um sujeito que se propõe a ocupar o papel que ele ocupa deve estar disposto a receber críticas. Não pode haver brechas para a intransigência, Tico Santa Cruz definitivamente NÃO PODE REPRESENTAR ninguém em seus manifestos, simplesmente porque não tem a capacidade de ouvir uma ideia dissonante.

Eu não gosto de pensar que sou um sujeito muito esperto, mas ás vezes aparecer alguém se achando esperto, dá uma de otário e acaba por levantar a minha moral. Obrigado, Tico Santa Cruz. Não precisava de tanto.

Update: se uma imagem vale mais que mil palavras, quanto vale uma imagem com algumas palavras?

Eu nem reparei nisso.

Eu nem reparei nisso.

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Originalmente publicado em 03 de julho de 2009.