A Memória Presa na Fotografia

O casamento dos afilhados foi nesse último fim de semana. Foi maravilhoso testemunhar a felicidade deles, encontrar os grandes amigos, beber um pouco, dançar e comer bem-casados. Tantas fotografias trouxeram de volta uma idéia antiga que eu tenho em relação a capacidade de uma fotografia de preservar uma memória.

Eu tenho uma memória excelente. Não tenho problemas em lembrar datas, fisionomias ou nomes. Não entendo nada de música, mas posso assoviar os acordes de canções como se realmente estivesse as ouvindo. Para resumir: outro dia eu descrevi uma cena que eu tinha na minha memória e minha mãe me disse que a cena realmente tinha acontecido quando eu tinha dois anos e meio de idade.

Eu simplesmente não tiro fotos. Não sei e nunca resolvi aprender a fazê-lo razoavelmente bem. Apenas não consigo entender como que uma fotografia pode ser uma lembrança melhor do que a que eu vou guardar do momento. A foto vai mexer com um sentido, quando no fundo as boas lembranças são sinestésicas. Mais que sinestesia, costumo reviver o que eu sentia no momento da lembrança.

Um exemplo: toda vez que eu ouço falar do escândalo do mensalão eu sinto uma pontada. Na época eu estava no meio de um turbilhão de problemas familiares, financeiros e pessoais tão intenso que associei as duas coisas. Outro dia revendo a lendária falação do Roberto “instintos mais primitivos” Jefferson no depoimento do José Dirceu voltou uma carga enorme de lembranças ruins e eu quase chorei. Pode ser que eu precise de terapia para lidar com a minha memória, mas eventos como esse acontecem também com boas lembranças, então não me sinto tão incomodado assim.

Por isso tudo, cada vez que eu vejo alguém fotografando alguma ocasião eu fico com uma sensação estranha. É como se aquela fotografia fosse aprisionar uma lembrança. Como se, com uma foto, toda uma memória seja ela boa ou ruim, fosse subitamente esquartejada, lhe restando apenas meios de provocar um único sentido, diminuindo o que poderia ser uma grande lembrança, numa triste e diminuta imagem.

Não tiro fotos. Guardo na minha cabeça as lembranças que eu puder. E se por acaso um dia eu não conseguir mais acessá-las, então elas talvez não fossem dignas de uma fotografia, simplesmente porque não mereciam a glória de ser lembrada, e toda tentativa torná-las imortais terá sido mentir para a sua própria memória.

Mas há por aí fotografias belíssimas, e sobre elas ainda não quero falar.

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Originalmente publicado em 1º de junho de 2009

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