Eu tenho medo do Serra

Esse post do Rafael Galvão me acendeu uma fagulha. Os eventos ocorridos na USP ontem, quando PMs invadiram a universidade e baixaram o bambu nos manifestantes usando de força desproporcional me obrigaram a escrever esse post.

Mas vamos começar com uma imagem, que dizem que vale mais que mil palavras, embora nesse caso eu acho que apenas enfeita o post, como uma cereja enfeita um bolo.

Prometeu, mas não cumpriu.

Prometeu, mas não cumpriu.

Viram bem? Estamos falando de um homem público, político eleito para um cargo executivo na maior cidade do país, que descumpriu sumariamente uma promessa pública feita aos seus eleitores. Os mais tolerantes (e os tucanos) vão dizer que ao deixar a prefeitura para assumir o governo do estado, Serra mudou de esfera sem deixar de cuidar da cidade. E que tipo de homem ele é? Super-poderoso ao conseguir dar conta do estado e do município ou negligente com a população de todos os outros 644 municípios do estado de São Paulo?

Campanha presidencial de 2002. O Lula liderava desde o começo, e subitamente o bizarro Ciro Gomes começa a despontar nas pesquisas. Alguém lembra exatamente como a campanha do Ciro Gomes foi desancada? Eu lembro. Programas do Serra dedicados inteiramente a repetir as bobagens que o tosco do Ciro falou. “Mas esse é o jogo jogado” dirá o mais inocente. Sim, esse é o jogo jogado. Vamos voltar mais um pouco.

Antes das eleições de 2002, o PFL (que hoje se chama DEMO) e o PSDB eram unha e carne. Tão parceiros que o PFL contava com o apoio do PSDB para a sua candidata a presidente, Roseana Sarney. Cabe lembrar que Roseana era uma candidata com chances reais de se eleger. Uma pilha de dinheiro achada pela PF foi o suficiente para implodir a pré-candidatura da Sarneyzinha e, por conseguinte azedar a amizade PSDB-PFL. Cui bono? Jose Serra.

Durante a campanha para a prefeitura de São Paulo em 2004, a PF invadiu uma rinha de galos no Rio de Janeiro e prendeu o publicitário Duda Mendonça e o vereador Jorge Babu (que por mim tava preso até hoje, só por garantia). Duda era responsável pela campanha de Marta Suplicy, prefeita de São Paulo e candidata a reeleição. Quem era seu maior adversário na campanha? Jose Serra.

Todo mundo sabe que o Guilherme Fiuza é um pouquinho (alguns dizem que é muito) tucano. Mas olha só o post do cara sobre o então recém-eleito governador de São Paulo José serra (isso sumiu da internet, mas foi originalmente publicado no blog do Fiuza, Política e Cia em No Mínimo):

Que José Serra não sabe rir, não é nenhuma novidade. E é melhor mesmo quando não tenta um sorriso, porque o resultado amarelo é sempre uma agressão à idéia de simpatia. Mas no último domingo, o não-sorriso de Serra, governador eleito de São Paulo, estava mais amargo do que nunca.

Num palanque ao lado de Geraldo Alckmin, colega de partido que comemorava a inesperada virada para o segundo turno na disputa presidencial, a carranca de Serra era de uma sutileza obscena. Ele fez questão de fechar a cara no clímax do discurso de Alckmin, naquela hora crucial em que as TVs pegam o “até a vitória” ou coisa que o valha. Muito estranho.

Ou melhor, muito claro. Para quem não se lembra, logo após o final da novela da escolha do candidato do PSDB à presidência – em que Serra foi derrotado por Alckmin –, proliferaram na imprensa notinhas, comentários e declarações em off torpedeando a decisão do partido. Adivinhem quem estava por trás dessa plantação?

O PSDB estava em guerra interna, Alckmin tinha atropelado os ritos partidários, era um candidato inexpressivo, desconhecido nacionalmente, com visão interiorana e uma penca de problemas administrativos. Essas duras críticas se espalharam pelo noticiário com uma amplitude proporcional às ótimas relações de José Serra com jornalistas dos grandes centros.

Geraldo Alckmin, o homem que ao lado de Mário Covas tirou São Paulo do buraco, tocando a mais profunda reforma administrativa que o Brasil já conheceu, parecia reduzido a um clown. Um mero picolé de chuchu.

Poucas vezes se viu na política brasileira um fogo amigo tão letal. Alckmin passou meses sendo tratado como um pusilânime, um jeca, um pindamonhangabense pagando mico numa corrida presidencial. José Serra e Aécio Neves assistiam a esse aparente naufrágio à distância. O primeiro piscando o olho desavergonhadamente para Lula, o segundo não dando um dedo mindinho à campanha nanica do Geraldo.

Mas o Geraldo cresceu. Calou as cassandras e os ibopes, e trouxe para a disputa terrena o mito do Luiz Inácio Padinho Ciço da Silva. Nem o mais amarelo dos sorrisos de José Serra deu conta desse constrangimento.

Em seu primeiro pronunciamento como governador eleito em primeiro turno, Serra saudou paulistas e paulistanos, mas fez questão de agradecer “aos brasileiros”, citados mais de uma vez em seu discurso. A referência insistente aos brasileiros por um político que acaba de ser eleito para governar um – apenas um – estado da federação é sutil como um berro de Heloísa Helena.

Serra iniciou sua campanha presidencial para 2010 no exato momento em que seu companheiro de partido inicia a disputa decisiva pela mesma cadeira. Chocante.

Alckmin, que sempre defendeu a reeleição, já sofre pressões para pronunciar-se contra ela. Afinal, em 2010 a cadeira tem que estar vaga para Serra.

O ideal mesmo para o tucano do sorriso amarelo, o Dirceu do PSDB, é que Alckmin perca a eleição – e ele possa enfrentar o que sobrar de Lula após mais quatro anos de peripécias do PT.

Vão dizer que isso é assim mesmo, que é do jogo. Tudo bem. Mas não venham mais falar de partidos políticos como o esteio da democracia.

Dizem que Serra é centralizador, autoritário, intransigente e autocrata. Mas isso eu não posso confirmar, mas vou me permitir à canalhice de sugerir e deixar quem quiser fazer seu próprio julgamento, Serra merece isso.

Eu realmente acredito que a alternância de poder pode ser saudável para o Brasil. Acho que PSDB e PT são irmãos separados no nascimento, que um dia vão deixar de lado as invejinhas que um tem do outro e caminhar de mãos dadas, enquanto o DEMO assume o seu papel de direita brasileira. Mas prefiro atrasar em mil anos uma alternância de poder a ter Jose Serra como presidente do Brasil. Porque ele inegavelmente é o candidato do PSDB a presidência em 2010.

(Eu se fosse o Aécio Neves não batia de frente com ele. Um sujeito que foi considerado melhor que Maradona por um estádio inteiro, numa comparação que não envolvia futebol e sim as “aspirações” do craque, deve ter um mísero esqueleto no armário. E o Serra deve saber onde fica esse armário.)

Eu agora entendo a Regina Duarte. Por mais descabida que tenha sido a declaração dela, é terrível ter medo de um candidato a presidência.

———-

Originalmente publicado em 10 de junho de 2009.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: