Carta de apoio a José Sarney

Caro senado José Sarney,

Eu tenho acompanhado com o olhar um pouco distante as pancadas que o senhor e sua família têm recebido, por conta de esquemas estranhíssimos, nepotismo, atos secretos e o tipo de bandalheira sobre a qual não vou entrar em detalhes. Cada uma dessas pancadas é merecida, um homem na sua posição, com mais de cinquenta anos de vida pública, político da situação, seja qual for a situação, tem mais é que aprender a não incorrer em sacanagens amadorísticas, tampouco deixar a família fugir do seu controle e aprontar sem o seu consentimento.

Como era de se esperar, todo mundo por aí começou a pedir sua cabeça. Querem que você deixe não só à presidência do Senado, mas também o seu cargo vitalício de senador. A pressão é forte na mídia, na opinião pública e até no twitter, onde surgiu um movimento que deve ter tirado seu sono, dado o engajamento e o poder de mobilização dos envolvidos.

Mas eu não engrosso esse coro, senador. Estou aqui para dizer que acho que o senhor deve sim, continuar na cadeira de presidente do senado, um coro que não partiu de uma iniciativa minha, e não é de todo original, admito, mas do qual faço parte de bom grado.  Que fique claro aqui, que minha preocupação não é, como no caso do presidente Lula e de uma parte do PT, com a governabilidade. Eu apenas gostaria de lembrar que isso seria um fim ótimo para a sua biografia.

Zé Sarney, fica aí! Fique, mas ligue o ventilador, levante os tapetes para que a sujeira apareça, vá ao arquivo morto da casa (e talvez da República inteira) e apanhe os sacos de merda. Fique, mas dê nome aos bois, diga como cada senador corrupto se aproveita do dinheiro público, mostre como e por que cada funcionário do senado foi parar lá, chame Agaciel Maia e diga a ele que o tempo do silêncio acabou e que nada mais há a temer. Não poupe nenhum senador, seja qual for o partido. E não mantenha sua devassa restrita ao Senado, eu sei que o senhor é bastante influente na Câmara dos deputados, e que conhece pontas soltas o suficiente para começar a limpeza da casa nos moldes da que estaria sendo promovida no senado.

Faça mais. Vá aos demais poderes da República e exponha suas mazelas. Mostre onde se esconde cada conduta irregular que o senhor possa conhecer no poder executivo e seus ministérios de nomeações infinitas. Abra a caixa-preta do poder judiciário e saque do bolso todos os juízes que você puder, em todas as esferas da justiça. Não permita que sobre um só grão de irregularidade entre todas as que o senhor conhece. Traga à luz, tudo de podre alojado no lado escuro da república.

Eu sei que para isso, você terá que cortar na própria carne. Então comece pela sua família. Diga a sua filha, para renunciar ao Governo do Maranhão, estranhamente dado a ela de presente por uma decisão judicial. Diga aos seus filhos que cortem qualquer relação estranha com empresários malandros, e aos netos que procurem um emprego na iniciativa privada. Transfira seu domicílio eleitoral para o Maranhão, de onde o senhor nunca se mudou, e devolva ao Amapá a cadeira no Senado que lhes é de direito.

Não alimente ilusões sobre a sua biografia. Começou sua carreira política na UDN, foi parar na ARENA, quando a ditadura caiu o senhor foi pro PDS e hoje está no PMDB. Todo mundo sabe que o Maranhão é um estado refém da sua família. “Coronelismo”, “fisiologismo”, “nepotismo” e “clientelismo” são lugares-comuns em qualquer ponto da história política dos Sarney. E uma coisa que eu gosto sempre de lembrar, o senhor sempre foi situação, independente da alternância de poder.

Acha que estou pegando pesado? Se eu começar a falar do seu governo, Plano Cruzado, congelamento de preços, Plano Bresser, Plano Verão, moratória e aquelas histórias esquisitas sobre as obras de construção da Ferrovia Norte-Sul, talvez fique pior. É para continuar falando disso, ou o senhor acha melhor parar?

Senador, o senhor está com 79 anos, já não pode mais achar que vai durar muito tempo. Se quiser fazer alguma coisa para salvar a sua biografia, a hora é agora. Se você fizer metade do que eu te propus aqui, já vão esquecer seu passado. Se você fizer tudo que foi sugerido, provavelmente vão mudar o nome do Maranhão para Sarney, dezenas de milhares de escolas vão passar a se chamar José Sarney, vão criar alguma medalha de honraria de altíssimo grau com seu nome, biografias te retratarão como um herói e na adaptação para o cinema um galã vai lhe interpretar,  vão trocar a estátua de Machado de Assis na ABL por uma sua, maior e mais brilhante e sua cadeira será a mais desejada por qualquer escritor, seja ele quem for.

Não pense que não contei com a possibilidade do povo simplesmente não esquecer seu passado, contei sim. Mas se com uma ficha corrida dessas o nobre senador e sua família mantêm-se no poder, seja no Maranhão, ou usando uma cadeira tomada do Amapá, não vai ser quando realmente agir em prol do povo que será abandonado. Quem o manteve no poder enquanto o senhor os atraiçoava, vai ter muito prazer e cobri-lo de glórias quando o senador assim o merecer.

Mas se não gostou da minha sugestão, fica difícil te defender. Melhor levantar dessa cadeira, reunir a família toda e conduzir todos para fora da cena, longe dos olhares de um povo que um dia ainda vai aprender de que barro você é feito, José Sarney.

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Originalmente publicado em 17 de julho de 2009.

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