A doce vingança do pretenso enganado

Há alguns meses eu tive minha carteira furtada. Estávamos a Garota e eu andando pelo centro do Rio, e um pilantra de mão leve abriu a bolsa de fora da minha mochila e surrupiou minha carteira. Eu sei que foi uma grande bobeira da minha parte deixar a minha carteira em um lugar de tão fácil acesso. Fui descuidado e acabei pagando caro, na minha carteira furtada estavam todos os cartões de bancos e boa parte dos meus documentos. Fiquei sem eles em um período em que eles eram fundamentais.

Eu amaldiçoei o ladrão por algumas noites, mas foi tudo o que eu pude fazer.

Desde então, não tenho mais carteira. Mal ando com documentos e cartões, e quando preciso levá-los para a rua, ponho tudo junto da carteira de identidade. Não é o melhor jeito de organizar seus documentos, ás vezes eu temo que os cartões deem defeito, mas uso assim pela praticidade e pela preguiça.

Essa semana, eu estava andando pelo Centro do Rio, mais ou menos na mesma área em que fui roubado. Minha mochila pendurada nas costas da mesma maneira que no fatídico dia. Estava mais atento que naquela ocasião, mas não o suficiente para estar tenso. Era uma simples caminhada atrás de um cabo pro laptop, ora bolas.

Era uma simples caminhada até ser abordado pelo vendedor.

Ele vendia uma daquelas pomadas para contusões que vêm numa latinha. Um Gelol genérico numa lata semelhante a de Vick Vaporub. Me abordou com um sorriso simpático, me perguntando se eu não lembrava dele. Eu sou um excelente fisionomista, mas preferi fingir que lembrava dele, e que acreditava naquele papo de “Você ainda está lá na firma?” e “Depois que fui mandado embora tô defendendo o meu aqui.”

Quando ele começou a falar das maravilhas do produto dele, eu senti alguém tocar a minha mochila, e finalmente matei a minha dúvida. Quando o sujeito começou o seu óbvio migué, eu fiquei em dúvida entre malandragem de vendedor e artimanhas de gatuno. O toque na mochila foi a minha resposta. Eu estava para ser furtado.

Enquanto o vendedor falava sobre as maravilhas do seu produto, e que fazia questão que eu levasse uma latinha de graça para fazer propaganda, a mão continuou tateando pela bolsa de fora da minha mochila, procurando em vão por algo de valor que pudesse encontrar lá. Exceto por umas moedinhas que eu guardo numa embalagem de Cebion, não havia nada ali que valesse um tostão furado.

Quando o sujeito me passou a latinha, eu subitamente trouxe a mochila para frente do corpo, na intenção de guardar o produto na mochila, e reparei que a bolsinha de fora estava aberta. O vendedor se assustou com a minha reação e sugeriu me dar também uma pomadinha que melhoraria meu desempenho sexual. Eu neguei, achei melhor parar a brincadeira por ali, antes que ficasse perigoso para mim.

Quando me despedi do sujeito (com direito a um meio abraço e tudo) ele me pediu um “guaraná para dar uma força”. Apenas levantei o bilhete do metrô e disse que só tinha aquilo, que sem ele não teria como voltar para casa, mas que eu voltaria com uma dúzia de clientes para o produto dele, todos “lá da firma”. Virei minhas costas e saí em um passo apertado, levando na mochila a pomadinha esquisita do sujeito.

Naquele momento me senti o sujeito mais esperto do mundo. Não que aquele tivesse sido o mesmo sujeito que me roubou meses atrás. Muito menos achava que aquela pomadinha tosca valesse um décimo dos perrengues que passei pelo furto. Só que eu tinha aprendido a lição. Mais do que isso, eu me antecipei aos gatunos e dei um contragolpe, que não me valeu grandes ganhos materiais, admito, mas que me proporcionou um dos mais plenos sentimentos de vingança realizada que já tive na vida.

Enquanto eu caminhava para o Metrô, me lembrei de uma música do Jorge Ben em que ele diz que “Se malandro soubesse como é bom ser honesto, seria honesto só de malandragem”. Assoviei o samba baixinho, a latinha na mochila, e um sorriso maroto no rosto, típico de quem acabou de dar uma bela sacaneada em alguém que merecia.

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Update: enquanto escrevia o post, a Garota me manda uma mensagem dizendo que comprou uma carteira. A minha vingança foi na hora certa.

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4 Responses to A doce vingança do pretenso enganado

  1. El Mamut disse:

    Vingança maior seria se estivesse passando um PM na hora e visse o cara metendo a mão na sua bolsa…

    E gostei da citação ao grande Jorge Ben Jor!

  2. Pedro disse:

    por essas e outras que eu to sartando fora do Rio… não aguento mais essa cultura da malandragem.

  3. UNED99 disse:

    “Naquele momento me senti o sujeito mais esperto do mundo.”

    Sei qual é dessa sensação. Já tive uma experiência parecida há alguns anos…

    Saia eu da Uruguaiana quando um desses pivetes travestidos de engraxates freelancers me oferece seus serviços… eu, em tom descontraído, aceitei: “pô, tô precisando mesmo”. Aceitei. Primeiro por na época ainda não conhecer o golpe. Segundo por causa do meu hipócrita sentimento de compaixão pela classe favelizada, típico a maioria dos universitários classe média de Ciências Humanas.

    Segundos antes do moleque começar o trabalho, eu tento conferir o preço. Seguindo o roteiro do golpe, o garoto respondeu produzindo alguns ruídos pouco inteligíveis, que após o meu teceiro “como é que é?” me fizeram acreditar ter ouvido “três e cinquenta”. Findo o trabalho, o malandro recusa essa quantia esclarecendo, agora de forma bem compreensível: “é treze e cinquenta”.

    – Parceiro, só posso te dar essa nota de 5 aqui…
    – Tu perdeu então, pó colocar o celular aí na minha caixa logo…
    – Que celular rapá… que que tu ia achar se eu fizesse isso contigo? Vamu lá, eu por exemplo sou professor…
    – Ah tu é professor?… (sorriso sem graça)
    – Daí eu te paro na rua, começo a te dá uma aula sem tu pedir, depois te cobro um preço que não foi combinado… tá certo isso?
    – Não pô… mas eu engraxei a parada aí, tu vai ter que pagar…
    – Vou fazer que nem tu então… eu pago o que eu devo com uma aula de português agora então, vamu lá…
    – Fala sério (sorriso tímido)… segue teu rumo…

    E o moleque vai embora. Não levou nem a nota de 5.

  4. A Garota disse:

    realmente, ainda bem q estava viajando e q a sua carteira só chegou uma semana depois. rsrsrs

    Adorei o post. Eu estava presente no dia do verdadeiro furto e fiquei muito puta com o sentimento de impunidade q aquela situação me causava. A sua vingança acaba sendo a minha também.

    Mas vê se agora aprende!!!! mochila só se estiver bem atento e com a carteira e todas as coisas de valor bem escondidas!!!

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