Mudança

23/01/2010

A primeira vez que me mudei, eu tinha dez anos. Estava saindo do prédio que cresci, onde todos os meus amigos moravam. Aquele tinha sido um ano terrível, foi o ano que meu pai morreu, eu fui parar em uma escola nova com pessoas que não conhecia e precisamos mudar. Foi muito esquisito no primeiro dia da casa nova. Eu andava de bicicleta pelo apartamento, sem entender por que eu não tinha mais o playground.

Um pouco mais de um ano depois fizemos uma mudança muito maior. Minha mãe se casou de novo e estávamos indo morar em Macaé. Eu tinha boas lembranças de Macaé, mas morar lá parecia exagerado demais para mim. Ainda mais com a minha mãe casando com um estranho. Foi terrível ter que me adaptar a cidade nova, a escola nova, a vida nova, sem querer me adaptar a nada disso. Eu passei meses muito tristes naquela época, mas superei.

Em 2005, por conta de alguns problemas e, principalmente, porque eu não ia conseguir viver longe de uma Garota por quem eu estava recém-apaixonado há poucas semanas. Juntei minhas coisas e vim embora de volta pro Rio, tendo só um teto que me abrigasse aqui e uma perspectiva de emprego, nada mais. Foi uma mudança muito melancólica. Minha mãe não queria que eu viesse, eu me sentia abandonando a minha família. Para me despedir daquela vida que eu gostava um bocado, tomei um dos maiores porres da minha vida e entrei no ônibus no dia seguinte com uma tristeza maior que a ressaca.

Hoje eu desempacotei as últimas coisas da minha mudança. São apenas três quadras de distância da minha antiga casa, mas com possibilidades novas e muito boas. Foi talvez a única mudança da minha vida que eu fiz sem que nada me fizesse sentir obrigado a isso. Foi a primeira mudança da minha vida em que os prós eram muito maiores que os contras.

(Não que eu me arrependa de ter vindo pro Rio pra, entre outras coisas, ficar com a Garota. Olhando a minha vida hoje, foi uma das coisas mais inteligentes que eu fiz na minha vida. Mas eu só consigo ter essa idéia hoje, naquela época era tudo mais triste.)

Eu tenho lembranças especiais sobre cada uma dos lugares que morei. Lembro que no primeiro, tinha uma tomada falsa no meu quarto que escondia um cofre, e embora ele nunca fosse utilizado, eu adorava abri-lo, como quem descobre um tesouro. Lembro que o segundo era um apartamento tão grande que eu e meu irmão jogávamos bola na área de serviço. Lembro das casas de Macaé, da primeira vez que tomei um banho de mangueira no quintal, e de como era bom cochilar a tarde na rede. Lembro da última casa em Macaé, meu quarto ficava na frente da casa e não era incomum eu dormir olhando para o céu.

Que lembranças terei desse último apartamento? Talvez o caminho que aprendi intuitivamente entre os tacos soltos, para fazer menos barulho de madrugada. Quem sabe a mania de fechar o basculante do banheiro com medo de ser visto pelo vizinho. Vai saber! Guardarei essas lembranças, mas não poderei vivê-las intensamente, por que estarei ocupado com a casa nova.