Rapaz rapaz

Quando eu conheci o Tom, ele era muito mais velho e eu ainda era uma criança. Eu até era um pouco mais esperto que os outros garotos da minha idade, mas ainda era uma criança e até meu tipo físico entregava minha pouca idade. No primeiro momento isso foi uma grande barreira, mas aos poucos eu fui me entendendo com aquele tipo estranho. Não sei bem em que momento aconteceu, mas hoje eu não consigo mais fazer distinção de como era a minha relação com o Tom antes de nos tornarmos amigos como somos hoje.

Não é difícil querer ser amigo dele. O sujeito tem uma personalidade magnética, é daqueles que mesmo quando fica calado chama a atenção. Quando fala, é sempre relevante e quando não tem o que dizer simplesmente não comenta. É sagaz, inteligente, mas de um tipo de inteligência mordaz. Tem um senso de humor que oscila com muita naturalidade: se num instante ele está fazendo um trocadilho ingênuo, no outro ele pode estar fazendo uma piada suja e ácida, muito ácida. Além disso tudo, o Tom é de uma empatia que eu jamais vi igual.

E fomos ficando amigos, e companheiros. Foram dias e mais dias de filmes, quadrinhos, discussão sobre os filmes, discussão sobre os quadrinhos, discussão sobre política, discussão sobre ciências. Raro ter um assunto sobre o qual não conversávamos, e o sujeito tinha sempre um dado, ou opinião interessante para dividir comigo. Eu provavelmente passei mais horas da minha vida discutindo Matrix com o Tom do que, estudando física, por exemplo. E como eram prolíficos esses papos.

Quando eu precisei de grandes conselhos, o Tom estava lá para me dar. Quando eu precisei levar alguns esporros, o Tom estava lá para ter certeza que eu ouviria e, contrariando a atitude típica de um adolescente idiota, acataria. Não foram poucas as vezes que ele me orientou, e em nenhuma dessas vezes de maneira arrogante. Em muitos casos, ele sequer me dava algum conselho, ele apenas me ajudava a avaliar melhor o quadro. Com o tempo, me dei conta que ele sempre procurou me ensinar a fazer boas escolhas e, principalmente, confiar nos meus julgamentos.

Claro que quando eu estava na merda ele estava lá. Se não pudesse ajudar, ele com certeza teria uma maneira de levantar meu ânimo. O Tom é um daqueles que poderia viver de dar palestras motivacionais, sem nenhum charlatanismo. Ele não fica por aí tentando te convencer de que o mundo é perfeito e você pode ser o melhor em tudo, ele prefere mostrar a você que sim, a coisa pode ser bem ruim, mas talvez se você der um jeitinho aqui e outro ali… Ele te dá uma bela injeção de realidade, mas mostra para você onde podem estar as oportunidades.

Se hoje eu aprendo com o Leitor Oculto como cuidar do meu dinheiro, foi com o Tom que eu aprendi como e porque gastá-lo. Não que ele gastasse descontroladamente o dinheiro dele, mas ele não tinha pudor de gastar uma grana só para juntar uma turma e ver todo mundo se divertindo. De tostão em tostão, se um dia eu tivesse que pagar, eu estaria devendo uma fortuna para ele. Mas mesmo que eu tivesse essa grana, ele jamais aceitaria. Falando assim, parece que ele tinha muita grana, mas na verdade o que existia era o abismo financeiro entre um adolescente no ensino médio e um jovem com um bom emprego.

Um dia, eu fiz uma coisa, que hoje eu sei que foi errada, com o Tom e ficamos sem nos falar. Meses depois ele surgiu, me chamou para bater um papo e só depois de muita conversa sobre tantos outros assuntos ele me perguntou se eu me arrependia de alguma coisa que eu tinha feito naquele dia, lá atrás. Eu disse que sim, que me arrependia de uma coisa e ou outra e ele emudeceu. Voltou o assunto para todos aqueles temas que costumavam aparecer nas nossas conversas, e sobre os quais já não falávamos há alguns meses, e nunca mais falamos da briga. Tabu? Claro que não, esse é o jeito do Tom de não perder tempo com coisas que não merecem.

Um dia ele me contou um segredo, e eu fiquei lisonjeado, mas muito lisonjeado por isso.

Tom, eu não sou seu Greatest Partner, eu estou muito mais para seu sidekick. Naquele seu post (que até hoje me faz chorar) do meu aniversário você faz uma referência a Bruce e Clark, mas seria muito mais justo falarmos em Bruce e Dick. Não tenho a ilusão de achar que estou, no todo, no mesmo patamar que você. E não há experiência, vivência ou conselho que me faça chegar lá, porque você simplesmente é assim, e quem te conhece está por aí para provar que dessa vez eu estou certo.

E agora vou parar, antes que eu fique piegas. Já falei o suficiente, mas se você teve saco de ler tudo, aposto que vai prestar atenção nesse negrito: você é foda, cara! De todas as coisas legais da vida, ser seu amigo é sem dúvida uma das melhores. E eu espero que nos muitos anos que você vai ter de vida, possamos continuar a nossa amizade.

Um grande beijo.

P.S.: Tomei o cuidado de publicar só dois dias depois do seu aniversário, para você não achar que, com isso eu estava te dando os parabéns. Mantenho a nossa tradição de não te dar os parabéns. 😉

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2 Responses to Rapaz rapaz

  1. Tom disse:

    Só tenho algo a declarar:

    Não comento! (mas foi por e-mail)

  2. El Mamut disse:

    Figura,

    no começo fiquei um pouco enciumado com a quantidade de posts sobre nosso amigo Tom.

    Mas na realidade eu tenho que concordar com você. Tom é um cara inconfundível. Um grande amigo!

    Em certo momento do seu texto, vi que você se eximiu do papel de Clark para encarnar o Dick. Pois é, talvez eu seja o Clark. Hehehe…

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