SWU é pra Jacu – parte 2

(Se você chegou agora, começa por aqui)

Paramos em um dos 4.752 restaurantes Graal da Dutra e fizemos um pequeno almoço. Optei por carboidratos que me dariam energia para continuar a jornada, além de contribuir para manter minha péssima boa forma. Tiozão optou por uma mistura de saladas e carnes leves, com um pouco de carboidrato. Bill fez questão de experimentar o churrasco do lugar apenas pelo prazer de dizer, “não há churrasco como o do Sul”. O encontro com o caminhoneiro havia acendido a chama farroupilha no nosso amigo.

Na parada decidimos que, uma vez que não podíamos confiar plenamente em Sílvia, era melhor olharmos no Google mapas o melhor caminho para Itu, e quem sabe com sorte achar o endereço certo da tal fazenda Maeda. Conseguimos fazer Sílvia localizar o endereço do SWU e confiamos que dessa vez ela não nos trairía. Por via das dúvidas, programamos o GPS do celular do Tiozão para o mesmo destino, esperando assim que um pudesse confirmar o outro.

Só não paramos para pensar no que aconteceria exatamente se os dois aparelhos indicassem rotas diferentes. Mas já chego nesse ponto.

Cansado de se angustiar no banco do carona, Tiozão decidiu pegar a direção. Bill concordou de pronto, porque dessa forma teria as mão liver para continuar bebendo seu chimarrão. O calvo seguiu viagem firme, tranquilo e mais ágil do que imaginávamos.  Sem perceber cruzamos a divisa do estado e entramos em São Paulo, mas não sem antes desembolsarmos uma fortuna em pelo menos 37 postos de pedágio.

Seguimos animadamente pela estrada com Tiozão pilotando audaciosamente e desviando de dezenas de romeiros que peregrinavam para Aparecida do Norte. Sugeri que parássemos e testássemos a fé de um dos romeiros lhe oferecendo uma carona. Meus amigos me reprovaram, porque uma coisa é ser ateu, outra é ser espírito-de-porco. No fundo acho que eles não queriam correr o risco do romeiro aceitar e termos que carregar dentro do carro um sujeito que estava há pelo menos cinco horas caminhando sob o sol.

Enquanto eu arrumava minha mochila, na noite anterior, resolvi conferir a previsão do tempo para Itu no dia seguinte. Segundo o Climatempo a previsão era de céu nublado, mas sem chuvas, com máxima de 23º e mínima de 13º. Usei meus conhecimentos básicos de metereologia: a mínima normalmente é a temperatura registrada entre as 4 e 6 da manhã. A média entre 23 e 13 é 18º. Ora, não é uma temperatura que exija um casaco mais pesado. Vesti uma camisa de malha, colquei na mochila uma camisa de malha de mangas compridas e levei um casaco leve que eu tenho. Estava mais do que preparado para a temperatura prevista.

Eu só esqueci do diabo da “sensação térmica”.

Paramos o carro em Itaquaquecetuba, cidade famosa pelo seu nome impronunciável, porque Bill sugeriu que tomássemos um café. Ao descer do carro, minhas pernas se retraíram e meu queixo começou a tremer tanto que acho que quebrei um dos meus dentes. Ventava gelado lá fora e ainda era dia. Nos olhamos e sem que ninguém dissesse uma palavra pensamos a mesma coisa. No meio do mato, em Itu, provavelmente o frio seria ainda mais selvagem.

Entramos na simpática lanchonete dispostos a tomar um café e comer um lanchinho rápido. Eu pedi um capuccino, com muito açúcar. Bill, um café preto, forte e sem açúcar. Tiozão pediu um mocaccino com adoçante. Bill e eu nos olhamos desconfiados, Tiozão deu de ombros.

Enquanto eu tomava meu capuccino e comia um pão de queijo, olhei para a vitrine e me assustei com o que eu vi. Bill também viu e na mesma hora seus olhos brilharam. Estávamos diante do maior sonho que já havíamos visto. O pão era fino e aparentemente delicado, mas havia pelo menos meio quilo de creme recheando o sonho. Bill não se fez de rogado e pediu o sonho, eu senti minha taxa de glicose aumentar só ao vê-lo comendo a guloseima.

Ainda tomando café, decidimos perguntar a jovem que nos atendia se estávamos longe de Itu. “Itu? Não conheço. Conhece, fulano?” ela perguntou ao outro atendente. “Não sei onde fica não”. Pensamos

A foto não faz justiça

que tínhamos dado azar e perguntado para as pessoas erradas. Saímos da lanchonete e abastecemos o carro. Perguntamos a um dos frentistas se estávamos longe de Itu e ele não soube responder, mas balançou a cabeça negativamente, mas segundos depois o homem gritou um nome e ficou nos olhando como quem nos tranquilizasse.

Ao ouvir o grito, surgiu dos fundos do posto um homem baixo, de bigodes e feições rústicas. Falava com forte sotaque do Nordeste. “Pra onde cês vão? Itu? Fácil, meu filho. Siga aqui pela Carvalho Pinto até o fim, você vai sair na Ayrton Senna. Siga até o fim e você vai sair na marginal. Vá até o fim…”. As instruções eram claram e perfeitas. Olhávamos boquiabertos enquanto um nordestino ensinava aos forasteiros como andar pelo estado de São Paulo, humilhando sumariamente os paulistas que não souberam nos informar antes. Quando ele acabou de explicar, eu sabia quem eram os verdadeiros donos de São Paulo.

Enquanto o homem abastecia o nosso carro, Bill falou que a erva-mate do chimarrão tem 14 vezes mais cafeína que o café, e que depois de ter tomado seu litro diário de chimarão, estava na hora dele tomar um pouco mais do estimulante. Pegou no carro três latas de energético e uma embalagem de cápsulas de guaraná em pó. Se serviu de duas cápsulas e bebeu um gole grande de energético. Quando a latinha acabou, ele nos olhou com um sorriso enigmático. Repetimos o ritual do gaúcho, afinal não queríamos correr o risco de sucumbir ao cansaço durante o show. Um sinal de alerta acandeu na minha cabeça, mas eu o ignorei deliberadamente.

Antes de sair do posto cogitamos a possibilidade de vendermos Sílvia e pagarmos ao sujeito que sabia de fato o caminho para Itu. Foi Bill quem nos lembrou que iríamos sentir falta de uma voz feminina. Seguimos viagem com Sílvia, deixando para trás nossa maior chance de chegar e voltar da fazenda Maeda sem nos perder. Enquanto partia, fiquei de joelhos no banco de trás do carro, dando adeus ao nosso guia. Ele retribui com um sorriso afável e um aceno com a mão. Eu havia conhecido a esperança e a deixei num posto de gasolina no meio do caminho.

Cruzamos todas as rodovias mencionadas, entramos em São Paulo, passamos pela Marginal (Tietê? Pinheiros? Não sabíamos). Pagamos mais 21 pedágios e finalmente entramos na Rodovia que era nosso destino. Era só uma questão de olhar para os lados e ver as placas nos indicando como chegar no SWU. Andamos, andamos e andamos mais e nada de placa nenhuma. Estávamos no meio da estrada, de um lado escuridão e mato, do outro mato e escuridão. Começamos a questionar se estávamos no caminho certo. Eu era só temor no banco de trás, mas meus amigos pareciam calmos.

Até Sílvia, no meio daquela escuridão, dizer: “vocês chegaram ao seu destino”.

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