Ficção [III]

Quando o passar do tempo é um problema, sua mente começa a te pregar peças, tentando te dar a sensação de que o seu tempo está sendo bem aproveitado. E graças a isso eu acordei antes do sol nascer, mesmo tendo dormido muito pouco e muito mal.

Sentei-me na inútil poltrona de leitura que Julia insistiu que eu colocasse no meu quarto. De frente para poltrona, há uma enorme janela, na qual nunca quis colocar uma cortina, porque gosto da luz natural, e de alguma forma o sol não entra pela janela. Entre a poltrona e a janela fica a minha cama, ainda desarrumada da noite, ainda ocupada.

Desvio meu olhar para a mulher. Sinara (ou Cynara, seja lá como se escreve) foi como ela disse que se chamava. Fez questão de sentar próxima de mim no balcão do bar, puxou conversa e em menos de dez minutos me fez um elogio, embora eu não estivesse dando muita atenção a ela. Ela está deitada de lado, nua, quase em posição fetal e protegendo a barriga.

A barriga.

Isso explica porque ela não bebia, porque ela puxava o ar entre os dentes cada vez que eu acendia um cigarro. Mais, explica também a estranha rigidez dos seus seios, e a posição pela qual ela optou. Pobre mulher. Espero sinceramente que ela não esteja procurando por um pai, porque não me falta apenas vocação. Meu problema é muito maior.

Alguma coisa me compadeceu naquela imagem. Diante de mim havia uma mulher que em pouco traria ao mundo uma criatura viva. Não havia ironia maior do que eu macular aquele corpo, aquela matriz. Me senti desconfortável, um invasor, um agressor. O ventre daquela mulher era o lugar de uma vida nova, não devia ter sido tomado por alguém já em franca decadência, muito mais perto da morte do que ele perto da vida. Aquele ventre era para nascimento, não para morte.

Foi o barulho do isqueiro que a despertou. Ela abriu os olhos devagar, virou as costas para a janela e permaneceu deitada. Seus olhos me fitaram nos olhos e ela percebeu que eu olhava para a sua barriga e uma faísca se acendeu no seu rosto. Ela se sentou na cama e ficou me encarando com um par de olhos envergonhados e ansiosos. Eu poderia tê-la tranqüilizado, mas apenas disse que não deveríamos mais no ver.

E enquanto ela se trancava no banheiro para tomar banho e se recompor, eu senti algo que acredito ter sido remorso.

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