Conto bobo

02/05/2011

O Presidente está sentado em seu gabinete, uma sala conhecida pelo seu formato, onde tudo é imponente, da tapeçaria aos móveis. Sentado atrás de uma pesada escrivaninha, ele lê um relatório pouco importante, mas sobre o qual vai ter que responder algumas perguntas no dia seguinte. Há um silêncio sepulcral na sala, interrompido por três batidas suaves e rápidas na porta.

Sem esperar por respostas o jovem secretário entrou no gabinete. O Presidente o olha, encara a gritante ansiedade do assessor e com um olhar o deixa a vontade para falar:

“Senhor, a fonte estava certa. Localizamos o nosso homem exatamente onde a informação afirmava que ele estaria. A informação foi precisa até com o cômodo em que ele estaria.”

“Prossiga” e pela primeira vez se ouve a voz do presidente, grave e imponente, como se estivesse permanentemente discursando para uma multidão “Já temos algum relatório?”

“Seguimos as ordens, Senhor. O Alvo Zero foi abatido sem que tivéssemos nenhuma baixa. O relatório preliminar diz que ele parecia estar entregando a própria vida.”

“Colaterais?”

“Não, Senhor. Nenhum dano colateral material, humano ou diplomático.”

O Presidente virou se para a janela. Sua mente percorreu o extenso jardim da Casa Presidencial, um dos seus gestos habituais antes de dar alguma ordem. O Assessor procurou se recompor enquanto o Chefe estava de costas.

“Avisem a imprensa. Digam que vou falar em no máximo uma hora. Cadeia nacional.”

“Senhor, eu trouxe para o senhor um modelo que…”

“Eu imagino o que diga o modelo” interrompeu o Presidente, “Mas gostaria de ouvir a sua opinião.”

“O fenômeno vai se repetir, senhor. A comoção causada pela captura do Alvo Zero transformará o Senhor em um herói ocasional. Há inclusive a possibilidade que os seus oposicionistas se curvem ante o seu feito. O Novembro será ótimo.”

“Ótimo. Prepare tudo para o meu pronunciamento. Obrigado pela notícia.”

“Apenas uma coisa, Senhor?” o Assessor falou com a voz quase trêmula “Eu gostaria de informar que o Serviço Secreto e as Forças Armadas estão muito desconfiados da fonte da informação. Estão fazendo perguntas e pressionando pessoas. Não queremos esses homens nos nossos calcanhares, queremos?”

O Presidente sorriu. Voltou a olhar para o Assessor. Seus olhos miúdos e negros faiscavam. Seus dentes muito brancos lhe davam uma aparência amável, mas imponente. “Você sabe ou conhece alguém que saiba a fonte da informação?”

O Assessor fez menção de responder, mas o Presidente apenas o interrompeu com um aceno e disse “Fique tranqüilo. Ninguém tem essa informação.”

O Assessor saiu. O Presidente ainda aguardou mais alguns instantes, tentando ouvir os passos do rapaz se afastando. Segundos depois, ele vira-se para a direita e sentado no sofá está um homem que até então ninguém havia percebido ali. Um homem grande, corpulento, com longos e muito bem penteados cabelos negros um uma barba cerrada feita quase cirurgicamente. Seus olhos são castanhos amendoados, e ele veste um terno muito elegante e bem cortado. Qualquer que visse o homem saberia que se trata de um homem muito rico e de muito bom gosto.

“Eu ainda estou espantado. Admito que, embora não fizesse o menor sentido, eu acreditei em você desde o começo. Mas como diabos você sabia exatamente em que cômodo o Alvo Zero estaria?”

O homem riu da expressão usada pelo Presidente. “Não se preocupe com meus métodos, se atenha aos seus planos para o futuro. E ainda lhe restam dois desejos.”

 Inspirado por isso aqui.