SWU é pra jacu – parte 3

19/09/2012

(Se você só chegou agora, começa por aqui e depois vai aqui)

Acredito que todos têm uma habilidade latente que podemos aprimorar ao longo da vida. O Tiozão tem a incrível habilidade de falar palavrões em sequência como se fossem todos um só, mas com bastante clareza. É difícil explicar, mas posso garantir que é um negócio engraçado e curioso de se ver.

voando baixo, rumo a sabe lá onde

E foi uma sequência dessas que o careca soltou quando Silvia nos disse que no meio do breu daquela estrada distante, havíamos chegado ao nosso destino. Não esperávamos que o evento fosse na beira da estrada, mas naquele lugar não havia nenhum indicativo de que havia por ali um evento como o SWU. Foi por uma questão de fé que continuamos naquela estrada, esperando que em algum momento um romeiro a caminho de Aparecida nos mostrasse um cartaz com alguma frase de incentivo, ou nos desse um mapa.

Alguns minutos depois, avistamos do outro lado da estrada uma intensa mov imentação de veículos. Havíamos descoberto a saída, agora bastava acharmos um retorno, mas tinha um bem perto, uns 15 quilômetros a frente. Percorremos o curto trecho e paramos, já na outra pista, na movimentação que achávamos ser a entrada que levava ao SWU, mas era só uns policiais parados na estrada, decidimos perguntar se realmente estávamos no caminho certo e o escolhido para descer do carro fui eu.

Naturalmente eu desci do carro e perguntei, com meu tom de voz de bom moço e tentando atenuar meu sotaque carioca, se estávamos próximos da entrada da fazenda Maeda, o policial me encarou se aproximou de mim devagar e num flash eu vi a besteira que eu tinha feito. Enquanto o policial se aproximava eu encolhi meus ombros para me preparar para o tapa que eu levaria no pé-do-ouvido, enquanto segurei a maçaneta para deixar o policial revistar o banco de trás do carro em busca de algum flagrante. Mas como ele não era um PM carioca, apenas me respondeu que a entrada era alguns metros na frente, e me ofereceu de nos acompanhar de motocicleta.

Uns minutos na tal trilha e confirmamos, estávamos no lugar certo. Entramos na fila enorme de carros tentando entrar no estacionamento, que pelo que eu entendi no mapa ficava a 1,5 km de distância da área do show (e para você não achar que cometi algum erro de digitação vou repetir por extenso: ficava a um quilômetro e meio do lugar do show). Não bastando isso, o estacionamento custava R$ 100,00 (isso, cem reais) mas apenas para carros com menos de quatro pessoas, com a justificativa de estimular as pessoas a não irem de carro, em nome da sustentabilidade e da construção de um planeta melhor e salvar as baleias, os pandas e o boto cor-de-rosa.

Movido a combustível fóssil sustentável

No que diz respeito a sustentabilidade eu preciso admitir que no caminho até o show encontramos vários geradores movidos a diesel, que todo mundo sabe que é um combustível fóssil sustentável para cacete. Sem mencionar na sensacional caçamba de coleta seletiva de lixo, cujo critério de selação parecia ser “se é ou parece lixo, joque aqui”, verde. Fazia sentido eles cobrarem mais caro para quem foi de carro, alguém tinha que sustentar toda aquela sujeira.

Descemos do carro, ansiosos para entrar logo no evento, mas não sem antes bebermos alguma coisa para esquentar. Muito fino, Bill havia comprado duas garrafinhas de malte, uma de scotch e outra de bourbon, que saboreamos animados, ainda no carro. Tiozão trocou sua camisetinha regata do Fluminense por uma camisa de mangas compridas, enquanto eu só pensava o quanto ainda teríamos que andar.

E andamos feito camelo de beduíno, mas conseguimos alcançar o lugar do show e até encontrar nosso lugar na frente do palco. Estava tudo certo para que a noite fosse de música e diversão. Assim esperávamos.

Quando chegamos estava rolando o show do Los Hermanos, mas eu desdenhei de com força. Primeiro porque não sou membro da igreja – sim, igreja, porque só um culto explica o fanatismo fundamentalista dos fãs – e segundo porque o Los Hermanos estava em “recesso”, mas já era o segundo $how que eu ia deles depois de anunciado o “recesso”.

Tomamos uma cerveja e fui ver o Mars Volta. Óbvio que o show foi sensacional, porque eles tocaram muitas músicas do primeiro disco (meu preferido), mas principalmente porque Cedric Bixler-Zavala nos brindou com o seu vasto repertório de dancinhas, e se tratando de dancinhas podemos dizer que Cedric é o herdeiro legítimo do rei das dancinhas insanas: Pete Townshend.

Tomamos mais uma cerveja e nos apinhamos mais na frente na expectativa do começo do show da noite. Dei uma palmadinha camarada no ombro do Tiozão, num gesto de profunda camaradagem, e quando fui fazer o mesmo com o Bill, olhei fundo nos seus olhos e vi algo que fez minha mente fazer um curto retrospecto daquele dia, e o pavor tomou conta de mim.

Recapitulando: ao longo do dia Bill tomou dois litros de chimarrão (que dizem ter tanta cafeína quanto o café). Quando paramos em Itaquaquecetuba, tomamos um café e Bill ingeriu dois comprimidos de guaraná em pó, que ele empurrou com uma lata de energético. Antes de entrar no evento, Bill tomou mais um energético.

Quando olhei no fundo dos olhos do meu amigo, dava pra ver as fagulhas da sua intensa atividade cerebral provocada pela cafeína, e eu tive muito medo.


Como se ter ido fosse necessário para voltar

19/09/2012

A verdade é que eu morro de medo de escrever.