Conto bobo [II]

O Pupilo respirou fundo, abaixou a cabeça e fitou seus joelhos dobrados e pernas cruzadas. Voltou a olhar na direção do Mestre e só conseguiu dizer “Mas como?”.

O Mestre também respirou fundo, mas sua respiração não poderia ser mais diferente que a do rapaz. O Pupilo bufou e respirou pesadamente, como se dentro de si houvesse um mar em pavorosa ressaca, arrebentando ondas furiosamente na praia. A respiração do Mestre era suave como um pequeno córrego. O modo como um homem respira diz muito sobre como ele se sente.

“Entenda que a vida é um grande acordo. Estamos diante de um universo de convenções. Escolhemos acreditar que as coisas são como elas são, mas esquecemos que na verdade o que vemos está filtrado por aquilo que chamamos de percepção.”

“Mestre, então podemos perfeitamente dizer que o universo existe, porque todos podemos percebê-lo. Mesmo um homem privado de um ou outro sentido é capaz de sentir o que está ao seu redor.”

“Mas jovem, você fala de um universo percebido por uma pessoa, porque cada indivíduo, cada consciência, vai ter a sua própria interpretação para o que está vendo. Por isso digo que o universo percebido é uma convenção.”

“Mestre”, e a essa altura o pupilo começava a se exaltar, “eu afirmo que há ao meu redor um universo. Posso ver o verde das folhas naquela árvore, posso sentir a textura da grama que toca meus pés, posso sentir o vento quente e úmido em meu rosto. O senhor pode não estar sentindo, mas eu estou, e afirmo que tudo isso existe realmente”.

O Mestre se permitiu rir de maneira afável para o Pupilo. Amava-o como um pai ao seu filho. Encontrava grande prazer em poder ensinar ao menino o que sabia.

“Ora”, disse o ancião ainda sorrindo, “você não se acha presunçoso demais ao afirmar que uma verdade que apenas você vê é a única verdade possível?”.

“Mas não foi isso que eu disse.”

“Mas é assim que me parece. Você adotou a sua opinião como a verdade do mundo.”

“Mas se estamos falando de um universo particular, por que ele não pode ser sustentado sobre as minhas verdades?”

“Ele pode, não posso negar. Mas num universo em que todas as verdades foram estabelecidas por um único indivíduo, que espaço há para a troca, para o aprendizado?”

O Pupilo apenas olhou para baixo, acenando levemente, concordando com o Mestre. Àquela altura, começou a chorar baixinho.

“Quando vim para cá escolhi deixar amigos, posses materiais e o convívio com minha família. Abandonei tudo o que eu tinha, e escolhi buscar o conhecimento que me proporcionaria a felicidade. Agora tenho ainda menos do que tinha quando cheguei aqui.”

“Sim, Pupilo. Eu entendo a sua dor.”

“Como ser feliz sem nada, Mestre? Que caminho trilhar se não tenho mais nada em que acreditar?”

O Mestre sorriu gentilmente, sabia que ele aquele seria o ensinamento mais importante, mas também o mais doloroso que ele teria de passar ao seu discípulo.

“É apenas depois de perder tudo que estamos livres para entender que mais importante que os destinos, são os caminhos.”

Inspirado pela vida, pelas leituras que andei fazendo e pelas conversas que andei tendo. E por Tyler Durden.

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2 Responses to Conto bobo [II]

  1. Pupilo disse:

    Seja o caminho. O destino, todos nós já conhecemos.

  2. Oculto disse:

    Curti!

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