SWU é para jacu – parte 4

02/01/2014

Eu sou um sujeito cético. Desconfio de fenômenos misteriosos que as pessoas dizem testemunhar, e até desconfio de certas ciências. Mas jamais esquecerei o que meus olhos viram naquela noite. Quando o Rage Against the Machine subiu ao palco, eu vi um homem ficar invisível.

Recapitulando: litros de chimarrão, café, energético e comprimidos de guaraná proporcionaram ao Bill a maior ingestão de cafeína que alguém pode tomar de uma vez. A energia era tanta, que ele começou a vibrar muito rápido, tão rápido que ele simplesmente desapareceu. Eu poderia dar a explicação física sobre como ele passou a vibrar numa frequência que o olho humano não captava, mas a verdade é que naquele momento Bill estava transitando entre diferentes planos da existência.

O grande problema é que quando ele reaparecia no nosso plano, ele acabava esbarrando nas pessoas que tentavam assistir o show. Então passei boa parte do show me desculpando com quem estava em volta. E sem necessidade, porque quase todos estavam tomados pela comoção de presenciar um fenômeno único e fantástico.

Quando o show acabou, Bill parecia menos energizado, e demos uma volta pelas belíssimas instalações do evento. 5 minutos depois desistimos e resolvemos ir embora. Assim que sentou no carro, Bill desmaiou de sono. Eu me ocupei de ligar para hotéis e pousadas da região. Para tentar conseguir onde dormir.

Sim, foi exatamente isso que você entendeu. Era madrugada, estávamos a quinhentos quilômetros de casa, e não tínhamos a menor ideia de onde iríamos dormir.

Liguei para os hotéis, pousadas, motéis, pensionatos e puteiros da região, mas nenhum deles tinha vaga. Ora, longe de nós desprezar a portentosa Itu, mas não dava pra achar que a rede hoteleira da cidade desse conta de um evento daquele porte, mesmo que o evento tivesse um camping sustentável onde você podia pagar R$ 6,00 por uma garrafinha (de plástico) de água mineral.

Com a sua calma característica, Tiozão proferiu pela primeira vez aquela frase que seria ouvida novamente naquela noite: “agora fodeu a porra toda”. Mas Bill subitamente acordou e disse com um tom que nos encheu de coragem: “te acalmem, pombas! Vamos para São Paulo, acharemos um hotel lá”.

Ele só não contava que talvez fosse tão difícil achar São Paulo.

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Ano para estar em paz

02/01/2013

Amigos, em meados de 2010, o blog ficou movimentado em função de pequenas ofensas que eu e Felipe Neto trocamos no Twitter. Foram milhares de visitas de fãs dele, me ofendendo gratuitamente na maior parte dos casos, ou querendo discutir a manifestação do vlogueiro. O post está lá para quem quiser dar uma olhadela na caixa de comentários.

 

Mas não é para trazer polêmicas das cinzas que eu estou aqui. Vim para lhes dizer que no começo de dezembro estive com o Felipão, e agora tá tudo bem. Fizemos as pazes, ele confirmou que eu realmente sou gordo, e demos um efusivo abraço.

Deu até suadouro, tão emocionado que fiquei.

É isso, amigos. Vamos começar 2013 sem mágoas, sem rancores e com energia para celebrar a paz.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


SWU é pra jacu – parte 3

19/09/2012

(Se você só chegou agora, começa por aqui e depois vai aqui)

Acredito que todos têm uma habilidade latente que podemos aprimorar ao longo da vida. O Tiozão tem a incrível habilidade de falar palavrões em sequência como se fossem todos um só, mas com bastante clareza. É difícil explicar, mas posso garantir que é um negócio engraçado e curioso de se ver.

voando baixo, rumo a sabe lá onde

E foi uma sequência dessas que o careca soltou quando Silvia nos disse que no meio do breu daquela estrada distante, havíamos chegado ao nosso destino. Não esperávamos que o evento fosse na beira da estrada, mas naquele lugar não havia nenhum indicativo de que havia por ali um evento como o SWU. Foi por uma questão de fé que continuamos naquela estrada, esperando que em algum momento um romeiro a caminho de Aparecida nos mostrasse um cartaz com alguma frase de incentivo, ou nos desse um mapa.

Alguns minutos depois, avistamos do outro lado da estrada uma intensa mov imentação de veículos. Havíamos descoberto a saída, agora bastava acharmos um retorno, mas tinha um bem perto, uns 15 quilômetros a frente. Percorremos o curto trecho e paramos, já na outra pista, na movimentação que achávamos ser a entrada que levava ao SWU, mas era só uns policiais parados na estrada, decidimos perguntar se realmente estávamos no caminho certo e o escolhido para descer do carro fui eu.

Naturalmente eu desci do carro e perguntei, com meu tom de voz de bom moço e tentando atenuar meu sotaque carioca, se estávamos próximos da entrada da fazenda Maeda, o policial me encarou se aproximou de mim devagar e num flash eu vi a besteira que eu tinha feito. Enquanto o policial se aproximava eu encolhi meus ombros para me preparar para o tapa que eu levaria no pé-do-ouvido, enquanto segurei a maçaneta para deixar o policial revistar o banco de trás do carro em busca de algum flagrante. Mas como ele não era um PM carioca, apenas me respondeu que a entrada era alguns metros na frente, e me ofereceu de nos acompanhar de motocicleta.

Uns minutos na tal trilha e confirmamos, estávamos no lugar certo. Entramos na fila enorme de carros tentando entrar no estacionamento, que pelo que eu entendi no mapa ficava a 1,5 km de distância da área do show (e para você não achar que cometi algum erro de digitação vou repetir por extenso: ficava a um quilômetro e meio do lugar do show). Não bastando isso, o estacionamento custava R$ 100,00 (isso, cem reais) mas apenas para carros com menos de quatro pessoas, com a justificativa de estimular as pessoas a não irem de carro, em nome da sustentabilidade e da construção de um planeta melhor e salvar as baleias, os pandas e o boto cor-de-rosa.

Movido a combustível fóssil sustentável

No que diz respeito a sustentabilidade eu preciso admitir que no caminho até o show encontramos vários geradores movidos a diesel, que todo mundo sabe que é um combustível fóssil sustentável para cacete. Sem mencionar na sensacional caçamba de coleta seletiva de lixo, cujo critério de selação parecia ser “se é ou parece lixo, joque aqui”, verde. Fazia sentido eles cobrarem mais caro para quem foi de carro, alguém tinha que sustentar toda aquela sujeira.

Descemos do carro, ansiosos para entrar logo no evento, mas não sem antes bebermos alguma coisa para esquentar. Muito fino, Bill havia comprado duas garrafinhas de malte, uma de scotch e outra de bourbon, que saboreamos animados, ainda no carro. Tiozão trocou sua camisetinha regata do Fluminense por uma camisa de mangas compridas, enquanto eu só pensava o quanto ainda teríamos que andar.

E andamos feito camelo de beduíno, mas conseguimos alcançar o lugar do show e até encontrar nosso lugar na frente do palco. Estava tudo certo para que a noite fosse de música e diversão. Assim esperávamos.

Quando chegamos estava rolando o show do Los Hermanos, mas eu desdenhei de com força. Primeiro porque não sou membro da igreja – sim, igreja, porque só um culto explica o fanatismo fundamentalista dos fãs – e segundo porque o Los Hermanos estava em “recesso”, mas já era o segundo $how que eu ia deles depois de anunciado o “recesso”.

Tomamos uma cerveja e fui ver o Mars Volta. Óbvio que o show foi sensacional, porque eles tocaram muitas músicas do primeiro disco (meu preferido), mas principalmente porque Cedric Bixler-Zavala nos brindou com o seu vasto repertório de dancinhas, e se tratando de dancinhas podemos dizer que Cedric é o herdeiro legítimo do rei das dancinhas insanas: Pete Townshend.

Tomamos mais uma cerveja e nos apinhamos mais na frente na expectativa do começo do show da noite. Dei uma palmadinha camarada no ombro do Tiozão, num gesto de profunda camaradagem, e quando fui fazer o mesmo com o Bill, olhei fundo nos seus olhos e vi algo que fez minha mente fazer um curto retrospecto daquele dia, e o pavor tomou conta de mim.

Recapitulando: ao longo do dia Bill tomou dois litros de chimarrão (que dizem ter tanta cafeína quanto o café). Quando paramos em Itaquaquecetuba, tomamos um café e Bill ingeriu dois comprimidos de guaraná em pó, que ele empurrou com uma lata de energético. Antes de entrar no evento, Bill tomou mais um energético.

Quando olhei no fundo dos olhos do meu amigo, dava pra ver as fagulhas da sua intensa atividade cerebral provocada pela cafeína, e eu tive muito medo.


SWU é pra Jacu – parte 2

22/10/2010

(Se você chegou agora, começa por aqui)

Paramos em um dos 4.752 restaurantes Graal da Dutra e fizemos um pequeno almoço. Optei por carboidratos que me dariam energia para continuar a jornada, além de contribuir para manter minha péssima boa forma. Tiozão optou por uma mistura de saladas e carnes leves, com um pouco de carboidrato. Bill fez questão de experimentar o churrasco do lugar apenas pelo prazer de dizer, “não há churrasco como o do Sul”. O encontro com o caminhoneiro havia acendido a chama farroupilha no nosso amigo.

Na parada decidimos que, uma vez que não podíamos confiar plenamente em Sílvia, era melhor olharmos no Google mapas o melhor caminho para Itu, e quem sabe com sorte achar o endereço certo da tal fazenda Maeda. Conseguimos fazer Sílvia localizar o endereço do SWU e confiamos que dessa vez ela não nos trairía. Por via das dúvidas, programamos o GPS do celular do Tiozão para o mesmo destino, esperando assim que um pudesse confirmar o outro.

Só não paramos para pensar no que aconteceria exatamente se os dois aparelhos indicassem rotas diferentes. Mas já chego nesse ponto.

Cansado de se angustiar no banco do carona, Tiozão decidiu pegar a direção. Bill concordou de pronto, porque dessa forma teria as mão liver para continuar bebendo seu chimarrão. O calvo seguiu viagem firme, tranquilo e mais ágil do que imaginávamos.  Sem perceber cruzamos a divisa do estado e entramos em São Paulo, mas não sem antes desembolsarmos uma fortuna em pelo menos 37 postos de pedágio.

Seguimos animadamente pela estrada com Tiozão pilotando audaciosamente e desviando de dezenas de romeiros que peregrinavam para Aparecida do Norte. Sugeri que parássemos e testássemos a fé de um dos romeiros lhe oferecendo uma carona. Meus amigos me reprovaram, porque uma coisa é ser ateu, outra é ser espírito-de-porco. No fundo acho que eles não queriam correr o risco do romeiro aceitar e termos que carregar dentro do carro um sujeito que estava há pelo menos cinco horas caminhando sob o sol.

Enquanto eu arrumava minha mochila, na noite anterior, resolvi conferir a previsão do tempo para Itu no dia seguinte. Segundo o Climatempo a previsão era de céu nublado, mas sem chuvas, com máxima de 23º e mínima de 13º. Usei meus conhecimentos básicos de metereologia: a mínima normalmente é a temperatura registrada entre as 4 e 6 da manhã. A média entre 23 e 13 é 18º. Ora, não é uma temperatura que exija um casaco mais pesado. Vesti uma camisa de malha, colquei na mochila uma camisa de malha de mangas compridas e levei um casaco leve que eu tenho. Estava mais do que preparado para a temperatura prevista.

Eu só esqueci do diabo da “sensação térmica”.

Paramos o carro em Itaquaquecetuba, cidade famosa pelo seu nome impronunciável, porque Bill sugeriu que tomássemos um café. Ao descer do carro, minhas pernas se retraíram e meu queixo começou a tremer tanto que acho que quebrei um dos meus dentes. Ventava gelado lá fora e ainda era dia. Nos olhamos e sem que ninguém dissesse uma palavra pensamos a mesma coisa. No meio do mato, em Itu, provavelmente o frio seria ainda mais selvagem.

Entramos na simpática lanchonete dispostos a tomar um café e comer um lanchinho rápido. Eu pedi um capuccino, com muito açúcar. Bill, um café preto, forte e sem açúcar. Tiozão pediu um mocaccino com adoçante. Bill e eu nos olhamos desconfiados, Tiozão deu de ombros.

Enquanto eu tomava meu capuccino e comia um pão de queijo, olhei para a vitrine e me assustei com o que eu vi. Bill também viu e na mesma hora seus olhos brilharam. Estávamos diante do maior sonho que já havíamos visto. O pão era fino e aparentemente delicado, mas havia pelo menos meio quilo de creme recheando o sonho. Bill não se fez de rogado e pediu o sonho, eu senti minha taxa de glicose aumentar só ao vê-lo comendo a guloseima.

Ainda tomando café, decidimos perguntar a jovem que nos atendia se estávamos longe de Itu. “Itu? Não conheço. Conhece, fulano?” ela perguntou ao outro atendente. “Não sei onde fica não”. Pensamos

A foto não faz justiça

que tínhamos dado azar e perguntado para as pessoas erradas. Saímos da lanchonete e abastecemos o carro. Perguntamos a um dos frentistas se estávamos longe de Itu e ele não soube responder, mas balançou a cabeça negativamente, mas segundos depois o homem gritou um nome e ficou nos olhando como quem nos tranquilizasse.

Ao ouvir o grito, surgiu dos fundos do posto um homem baixo, de bigodes e feições rústicas. Falava com forte sotaque do Nordeste. “Pra onde cês vão? Itu? Fácil, meu filho. Siga aqui pela Carvalho Pinto até o fim, você vai sair na Ayrton Senna. Siga até o fim e você vai sair na marginal. Vá até o fim…”. As instruções eram claram e perfeitas. Olhávamos boquiabertos enquanto um nordestino ensinava aos forasteiros como andar pelo estado de São Paulo, humilhando sumariamente os paulistas que não souberam nos informar antes. Quando ele acabou de explicar, eu sabia quem eram os verdadeiros donos de São Paulo.

Enquanto o homem abastecia o nosso carro, Bill falou que a erva-mate do chimarrão tem 14 vezes mais cafeína que o café, e que depois de ter tomado seu litro diário de chimarão, estava na hora dele tomar um pouco mais do estimulante. Pegou no carro três latas de energético e uma embalagem de cápsulas de guaraná em pó. Se serviu de duas cápsulas e bebeu um gole grande de energético. Quando a latinha acabou, ele nos olhou com um sorriso enigmático. Repetimos o ritual do gaúcho, afinal não queríamos correr o risco de sucumbir ao cansaço durante o show. Um sinal de alerta acandeu na minha cabeça, mas eu o ignorei deliberadamente.

Antes de sair do posto cogitamos a possibilidade de vendermos Sílvia e pagarmos ao sujeito que sabia de fato o caminho para Itu. Foi Bill quem nos lembrou que iríamos sentir falta de uma voz feminina. Seguimos viagem com Sílvia, deixando para trás nossa maior chance de chegar e voltar da fazenda Maeda sem nos perder. Enquanto partia, fiquei de joelhos no banco de trás do carro, dando adeus ao nosso guia. Ele retribui com um sorriso afável e um aceno com a mão. Eu havia conhecido a esperança e a deixei num posto de gasolina no meio do caminho.

Cruzamos todas as rodovias mencionadas, entramos em São Paulo, passamos pela Marginal (Tietê? Pinheiros? Não sabíamos). Pagamos mais 21 pedágios e finalmente entramos na Rodovia que era nosso destino. Era só uma questão de olhar para os lados e ver as placas nos indicando como chegar no SWU. Andamos, andamos e andamos mais e nada de placa nenhuma. Estávamos no meio da estrada, de um lado escuridão e mato, do outro mato e escuridão. Começamos a questionar se estávamos no caminho certo. Eu era só temor no banco de trás, mas meus amigos pareciam calmos.

Até Sílvia, no meio daquela escuridão, dizer: “vocês chegaram ao seu destino”.


SWU é para Jacu – Parte 1

15/10/2010

A caravana saiu de Copacabana, base carioca do Bill Savannah. Parti de metrô, feito um pequeno escoteiro. Na mochila um casaquinho safado, duas garrafinhas de água e uma pequena porção de alimentos de primeira necessidade.

O básico

Encontrei o Bill no Zona Sul para o café da manhã. Na verdade, quando desci da estação Bill já havia feito o seu prato, mas por incrível que pareça, quando cheguei no mercado ele parecia num tipo de transe. Seu olhar parecia perdido e por mais que eu olhasse na direção, não entendia o que havia deixado meu amigo tão espantado. Cinco minutos depois, já comendo, me dei conta que estava sem óculos, e quando os coloquei tudo fez mais sentido.

Conversamos animadamente durante o café. Bill me falava como tem sido sua rotina e como havia sido o show da noite anterior. Eu estava mais preocupado em saber quando partiríamos. Bill parecia não ter pressa, e eu fazia questão de chegar na tal fazenda Maeda a tempo de ver o Mars Volta, mas o Tiozão do Rock sequer havia dado as caras, e não iríamos embora sem ele.

Café da manhã saudável

Terminamos o café e partimos para o apartamento do Bill. Por um instante achei que meu amigo estava patrocinando uma academia Gracie, tamanha era a quantidade de barras de proteína que achei lá. Mas como havia na mesma sacola barras de cereal das mais finas e isotônicos, fiquei mais tranquilo. O Bill faz uma dieta de isotônicos, chimarrão, barras de proteína e ceral, que só é quebrada aos domingos, dia de churrasco.

Finalmente o Tiozão chegou, e partimos. Tiozão veio trajando uma camiseta do fluminense e o indefectivel “courinho” no pulso. Não sei exatamente de onde diabos ele tirou aquele courinho, mas o sujeito se sente viril com aquela porcaria e o que é de gosto, regalo da vida.

Entramos no carro e calibramos o GPS para qualquer endereço de Itu. Nosso raciocínio era muito simples: Itu deve ser uma cidade de médio porte, mas assim que puséssemos os pés na cidade veríamos indicações de como chegar no tal evento. Além disso, temos um GPS fodão, que dá os mais variados mapas rodoviários, urbanos e astrais. Chegar em Itu era uma questão de tempo.

A viagem tinha tudo para ser fácil, nós só não contamos com a possibilidade de sermos sabotados pelo GPS.

Antes de sair de casa, alguém falou “linha vermelha” o caminho mais rápido e óbvio para a Dutra. Bill, como bom gaúcho, disse que não sabia como pegar a via expressa. Confiamos que o GPS (que a partir de agora será chamado de Silvia, aquela da música do Camisa de Vênus) nos daria o caminho certo. A confiança durou menos de quinze minutos. Distraídos conversando, mal reparamos quando Bill cruzou 11 pistas de uma só vez na Linha Vermelha e entrou na Linha Amarela, sem chances de retorno. Foi a primeira peça pregada por Sílvia.

Depois de muito rodarmos procurando uma maneira de voltar a Linha Vermelha, finalmente conseguimos seguir viagem. Já chegando na Dutra, Bill sacou a sua cuia e começou a beber seu chimarrão enquanto dirigia. Já vi o Bill tomando na cuia algumas vezes, mas Tiozão nunca tinha visto tal cena. Profundamente curioso, o careca pediu para dar um tapa na erva, e decidiu transformar o momento do Bill num ritual coletivo. A contragosto, bebi o chimarrão.

Tomando na cuia

Na fila do pedágio, um caminhão emparelhou com o carro e o motorista olhou fixamente para a cuia de Bill. Os dois trocaram sinais secretos, e quando vimos, Bill e o motorista do caminhão estavam abraçados cantando o hino do Rio Grande do Sul. Felizmente eu consegui ser sagaz e puxar Bill para dentro do carro antes que os dois acendessem a churrasqueira que inexplicavelmente surgiu da caçamba do caminhão. Quando voltou para o carro, Bill tinha um sorriso

Sobrou até para mim

arrogante nos lábios e diante da nossa cara de reprovação falou impávido, “gaúcho é melhor em tudo”.

Seguimos viagem com Bill dirigindo com um arrojo espetacular. Aproveitando a pista dupla e as curvas da Dutra, o sujeito empurrava o acelerador do carro até o fundo, como se não houvesse amanhã, ultrapassando e abrindo passagem. No banco do carona, Tiozão agarrou-se ao puta-que-pariu com tanta força que dava para ouvir o courinho esticando no seu pulso. A tensão foi tamanha que 3 fios de cabelo nasceram naquela cabeça luminosa, como por milagre. Só de olhar dava para saber que meu amigo estava tão tenso que mordia o banco do carro, e não era com os dentes.


Rapaz rapaz

21/07/2010

Quando eu conheci o Tom, ele era muito mais velho e eu ainda era uma criança. Eu até era um pouco mais esperto que os outros garotos da minha idade, mas ainda era uma criança e até meu tipo físico entregava minha pouca idade. No primeiro momento isso foi uma grande barreira, mas aos poucos eu fui me entendendo com aquele tipo estranho. Não sei bem em que momento aconteceu, mas hoje eu não consigo mais fazer distinção de como era a minha relação com o Tom antes de nos tornarmos amigos como somos hoje.

Não é difícil querer ser amigo dele. O sujeito tem uma personalidade magnética, é daqueles que mesmo quando fica calado chama a atenção. Quando fala, é sempre relevante e quando não tem o que dizer simplesmente não comenta. É sagaz, inteligente, mas de um tipo de inteligência mordaz. Tem um senso de humor que oscila com muita naturalidade: se num instante ele está fazendo um trocadilho ingênuo, no outro ele pode estar fazendo uma piada suja e ácida, muito ácida. Além disso tudo, o Tom é de uma empatia que eu jamais vi igual.

E fomos ficando amigos, e companheiros. Foram dias e mais dias de filmes, quadrinhos, discussão sobre os filmes, discussão sobre os quadrinhos, discussão sobre política, discussão sobre ciências. Raro ter um assunto sobre o qual não conversávamos, e o sujeito tinha sempre um dado, ou opinião interessante para dividir comigo. Eu provavelmente passei mais horas da minha vida discutindo Matrix com o Tom do que, estudando física, por exemplo. E como eram prolíficos esses papos.

Quando eu precisei de grandes conselhos, o Tom estava lá para me dar. Quando eu precisei levar alguns esporros, o Tom estava lá para ter certeza que eu ouviria e, contrariando a atitude típica de um adolescente idiota, acataria. Não foram poucas as vezes que ele me orientou, e em nenhuma dessas vezes de maneira arrogante. Em muitos casos, ele sequer me dava algum conselho, ele apenas me ajudava a avaliar melhor o quadro. Com o tempo, me dei conta que ele sempre procurou me ensinar a fazer boas escolhas e, principalmente, confiar nos meus julgamentos.

Claro que quando eu estava na merda ele estava lá. Se não pudesse ajudar, ele com certeza teria uma maneira de levantar meu ânimo. O Tom é um daqueles que poderia viver de dar palestras motivacionais, sem nenhum charlatanismo. Ele não fica por aí tentando te convencer de que o mundo é perfeito e você pode ser o melhor em tudo, ele prefere mostrar a você que sim, a coisa pode ser bem ruim, mas talvez se você der um jeitinho aqui e outro ali… Ele te dá uma bela injeção de realidade, mas mostra para você onde podem estar as oportunidades.

Se hoje eu aprendo com o Leitor Oculto como cuidar do meu dinheiro, foi com o Tom que eu aprendi como e porque gastá-lo. Não que ele gastasse descontroladamente o dinheiro dele, mas ele não tinha pudor de gastar uma grana só para juntar uma turma e ver todo mundo se divertindo. De tostão em tostão, se um dia eu tivesse que pagar, eu estaria devendo uma fortuna para ele. Mas mesmo que eu tivesse essa grana, ele jamais aceitaria. Falando assim, parece que ele tinha muita grana, mas na verdade o que existia era o abismo financeiro entre um adolescente no ensino médio e um jovem com um bom emprego.

Um dia, eu fiz uma coisa, que hoje eu sei que foi errada, com o Tom e ficamos sem nos falar. Meses depois ele surgiu, me chamou para bater um papo e só depois de muita conversa sobre tantos outros assuntos ele me perguntou se eu me arrependia de alguma coisa que eu tinha feito naquele dia, lá atrás. Eu disse que sim, que me arrependia de uma coisa e ou outra e ele emudeceu. Voltou o assunto para todos aqueles temas que costumavam aparecer nas nossas conversas, e sobre os quais já não falávamos há alguns meses, e nunca mais falamos da briga. Tabu? Claro que não, esse é o jeito do Tom de não perder tempo com coisas que não merecem.

Um dia ele me contou um segredo, e eu fiquei lisonjeado, mas muito lisonjeado por isso.

Tom, eu não sou seu Greatest Partner, eu estou muito mais para seu sidekick. Naquele seu post (que até hoje me faz chorar) do meu aniversário você faz uma referência a Bruce e Clark, mas seria muito mais justo falarmos em Bruce e Dick. Não tenho a ilusão de achar que estou, no todo, no mesmo patamar que você. E não há experiência, vivência ou conselho que me faça chegar lá, porque você simplesmente é assim, e quem te conhece está por aí para provar que dessa vez eu estou certo.

E agora vou parar, antes que eu fique piegas. Já falei o suficiente, mas se você teve saco de ler tudo, aposto que vai prestar atenção nesse negrito: você é foda, cara! De todas as coisas legais da vida, ser seu amigo é sem dúvida uma das melhores. E eu espero que nos muitos anos que você vai ter de vida, possamos continuar a nossa amizade.

Um grande beijo.

P.S.: Tomei o cuidado de publicar só dois dias depois do seu aniversário, para você não achar que, com isso eu estava te dando os parabéns. Mantenho a nossa tradição de não te dar os parabéns. 😉


O bom companheiro de histórias

20/07/2010

O Tom é um escritor sensacional. Quem tem dúvidas vai lá no blog dele e confere. Mas não é disso exatamente que eu quero falar aqui.

Durante muito tempo, Tom escreveu histórias absolutamente fascinantes. Histórias que foram feitas para serem contadas, e reescritas com a ajuda de outras pessoas. Eu tive o prazer de colaborar em muitas dessas histórias.

Quantas hisórias sombrias, personagens fantásticos, descrições de lugares fantásticos. Foram boas histórias. Me desculpem pelo clichê, mas fomos a uma porrada de lugares sem jamais levantar da mesa. E era da mente do Tom que saiam as idéias geniais. A gente só surfava na onda.

Foram horas e mais horas de diversão. Obrigado.