Maratona Oscar 2015

22/02/2015

Em 2015 foram 36 filmes, mas só consegui ver 34. Faltou um animação e o novo filme do Paul Thomas Anderson. Mas mesmo assim já tenho o suficiente pra dar meus pitacos por aqui.

Vi muita gente falando que a safra é ruim, e até acho que a média realmente não é boa, mas uma coisa me animou esse ano: os três principais concorrentes – Birdman, Boyhood e O Grande Hotel Budapeste – são realizações corajosas e muito interessantes a sua maneira.

O que eu escrever aqui é minha opinião sobre os filmes, e tá todo mundo a vontade pra discordar. A discussão é sempre bem vinda.

Vamos nessa!

Os Melhores Filmes do Ano

Sniper Americano é uma patriotada do Clint Eastwood. Eu quase fiquei admirado com a competência dele em construir aquela patriotada e tentar nos convencer que um sujeito que matou mais de 160 pessoas é um boa praça que acredita estar fazendo o bem. Mas ele não me convence, até porque fica complicado achar que numa guerra existem os bonzinhos, que estão nessa numa missão libertadora, e os malvados esquartejadores e matadores de crianças.

Birdman é uma obra prima. Um tremendo exercício narrativo, filmado de maneira brilhante. A ideia de fazer parecer que o filme foi rodado um único plano me deixou embasbacado no cinema. E o roteiro é corajoso por deixar um monte de lacunas a disposição do espectador. Um filmaço que, se tudo der certo, será lembrado pelos próximos anos como um exemplo de que pequenos filmes podem ser sim grandiosos.

Boyhood por sua vez é a coragem de narrar o banal e nos aproximar dessa história, porque essa poderia ser a história de todos nós. O projeto é ousado e a maneira como ele foi feito me deixou ainda mais imerso no mundo do menino que protagoniza o filme. A vida pode ser banal e até ordinária, mas está cheia de dúvidas, tristezas, beleza e reflexões. Doze anos muito bem utilizados pelo Linklater.

Para fechar a trinca das grandes realizações, O Grande Hotel Budapeste aparece como o projeto mais audacioso de Wes Anderson. Mais audacioso porque considero o maior dos seus filmes, e não é fácil fazer um filme grandioso sem perder as características tão marcantes da sua filmografia. Anderson não muda a sua cartilha e mesmo assim nos entrega um filme de fantasia incrível e grandiloquente.

O Jogo da Imitação é um filme sobre uma história muito importante e real. Alan Turing foi um dos cientistas mais importantes do século XX e foi condenado pela justiça inglesa pelo crime de ser homossexual. Discussão importante a beça para os dias de hoje, né? Pena que durante o filme o personagem de Turing apareça mais assexuado impossível, o que confere um distanciamento absurdo do que parece ser uma questão importante para o filme. No fim, acabou inverosímil.

Selma anda pelo fio da navalha. Se ficamos incomodados com o tom maniqueísta do filme, e estão lá os vilanescos personagens do governador do Alabama e do xerife de Selma para ajudar nesse tom, mas não se furta de mostrar um pragmatismo das lideranças do movimento negro, especialmente de Martin Luther King, que não tem pudores de dizer que precisa da violência dos seus opositores para arregimentar apoios à sua causa. O resultado é um tremendo filme sobre uma passagem real que realmente soa como fiel aos seus personagens e fatos.

A bomba da lista é A Teoria de Tudo. Um roteiro pavoroso, com uma estrutura dividida em pequenos arcos que apresentam o conflito e o resolvem quase na mesma cena. No final você fica com a impressão que o filme não tem um grande conflito, tamanha é a pressa em resolver tudo. Não bastasse isso, a direção é exagerada demais. Não merecia estar nessa lista. Não mesmo.

Whiplash é um puta filme. Direção, roteiro, fotografia, montagem e elenco redondinhos, certinhos. Sem falar nos dois personagens principais que são muito aprofundados e complexos, o que dá ao filme um peso ímpar. Ainda fica uma discussão interessante depois do filme, sobre genialidade, abuso e mérito. A melhor surpresa na categoria.

Preferências e Palpites

Melhor figurino

Quem deve levar: O Grande Hotel Budapest

Quem eu prefiro: O Grande Hotel Budapest

Faltou alguém?: A Teoria de Tudo

Esse é barbada. O caminhão de indicações indica que a academia “descobriu” Wes Anderson e seu mundo maravilhoso. E esses prêmios vão ser de consolação, já que Budapeste não vai papar nada além das categorias técnicas. Embora seja ruim, o figurino de a Teoria de Tudo é muito eficiente, especialmente na caracterização do protagonista.

Melhores efeitos visuais

Quem deve levar: Interestelar

Quem eu prefiro: Interestelar

Faltou alguém?: Não. Tem até gente demais.

Convenhamos, hoje em dia um filme pra merecer esse Oscar tem que apresentar algo que pelo menos pareça novo. Não dá pra premiar efeitos que são apenas corretos dos filmes de heróis. Os macacos já nos deixaram embasbacados há uns anos. Fico com o buraco negro, porque é assim que deve ser por dentro um buraco negro.

Melhor mixagem de som e edição de som

Quem deve levar: Sniper Americano

Quem eu prefiro: Birdman

Faltou alguém?: Caminhos da Floresta

Embora sejam coisas bem distintas, juntei as duas categorias aqui porque as explicações delas são quase a mesma. Da maneira como foi filmado, Birdman precisava de um trabalho de som que fosse perfeito, e ele é. Mas a academia curte filme de guerra na categoria. Caminhos da Floresta é um musical que tecnicamente funciona.

Melhor maquiagem e penteado

Quem deve levar: O Grande Hotel Budapeste

Quem eu prefiro: Foxcatcher

Faltou alguém?: Caminhos da Floresta

Mais um prêmio técnico merecido. Sim, Tilda Swinton está irreconhecível em Grande Hotel Budapeste, mas Steve Carell está reconhecível e completamente diferente (e não é fácil fazer um cara simpático como ele parecer assustador). Isso sem mencionar as orelhas deformadas dos lutadores. Caminhos da Floresta tem algumas transformações divertidas e que mereciam uma indicação.

Melhor trilha sonora

Quem deve levar: O Grande Hotel Budapeste

Quem eu prefiro: O  Grande Hotel Budapeste

Faltou alguém?: Birdman

A trilha de Grande Hotel é rica, cheia de variações e acompanha muito bem o filme sem forçar a barra (ou como dizem, “comentar” o filme). Mas porra, deixar de fora uma trilha sonora quase toda composta para bateria foi triste.

Melhor design de produção

Quem deve levar: O Grande Hotel Budapeste

Quem eu prefiro: O Grande Hotel Budapeste

Faltou alguém?: Birdman

O Grande Hotel Budapeste vai ganhar aqui pelo mesmo motivo que vai ganhar em figurino e tem minha preferência pelo mesmo motivo. Faltou Birdman e cada um dos seus cenários ricos pra cacete em detalhes nessa lista.

Melhor Montagem

Quem deve levar: O Grande Hotel Budapeste ou Whiplash

Quem eu prefiro: Whiplash

Faltou alguém?: Não me ocorreu ninguém

O grande prêmio do filme de Wes Anderson (ou talvez um dos dois, porque ele pode levar fotografia também) e merecido. Whiplash é meu preferido por uma questão de gosto apenas. Se qualquer um dos dois ganhar tá ótimo.

Melhor fotografia

Quem deve levar: Birdman ou O Grande Hotel Budapeste ou Ida (ou seja, não tenho ideia)

Quem eu prefiro: O Grande Hotel Budapeste

Faltou alguém?: Whiplash

O favorito é Birdman porque não é pra qualquer um pilotar a câmera como o Lubezki faz (e ele já provou isso pra gente em Gravidade), mas pesa contra ele o fato de ter ganho ano passado. Ida é preto e branco e isso já é o suficiente pra cacifar o filme pra academia. O Grande Hotel Budapeste tem a minha preferência porque é o trabalho mais arrojado de fotografia de um filme do Wes Anderson, e isso não é pouca coisa, porque exige a coragem de usar uns filtros e palhetas de cores impensáveis, mas fazer ficar orgânico. É, na minha opinião, o maior mérito do filme, e acho que isso fala muito sobre o quanto eu gostei da fotografia.

Melhor filme estrangeiro

Quem deve levar: Ida

Quem eu prefiro: Tangerines

Faltou alguém?: Dois dias e uma noite

Ida vai levar porque é um filme que bate ao mesmo tempo na antiga União Soviética e no Holocausto. Relatos Selvagens corre por fora, mas acho que bem por fora. Meu coração vai bater mais rápido se Tangerines ganhar porque ele é daqueles filmes que eu nem saberia que existe se não fosse indicado e que fazem a maratona valer a pena. Tangerines tem um roteiro simples mas muito bem amarrado, trata de um tema delicado sem ser piegas, e tem um final arrebatador. Tangerines é daqueles filmes que quanto mais você pensa a respeito, mais você gosta dele.

Melhor longa de animação

Quem deve levar: Operação Big Hero

Quem eu prefiro: Como Treinar o Seu Dragão 2

Faltou alguém?: O Menino e o Mundo

Nessa categoria não vi um indicado, Song of the Sea, mas acho que dá Disney. O que seria injusto, porque Como Treinar o Seu Dragão 2 já merecia um prêmio desde o primeiro filme, não só pelas qualidades técnicas, mas pela mensagem e pela coragem do final. A continuação não deixa a peteca cair e eu fiquei criança assistindo.

Mas aqui tem um parágrafo especial pra falar da animação brasileira O Menino e o Mundo. Eu não sou sujeito que me ufano com qualquer filme brasileiro, mas esse é especialmente maravilhoso. Se o cinema é a forma a serviço do conteúdo eu vi poucas vezes uma animação tão inteligente quanto esse filme. E olha que nem comecei ainda a falar das qualidades dele em si, seu design de produção inventivo dentro do tom lúdico do filme, a coragem do roteiro em abrir mão dos diálogos, a trilha impecável. Um filme raro de se ver no cinema e que merece a sua atenção. Vá ver agora!

Melhor atriz coadjuvante

Quem deve levar: Patricia Arquette

Quem eu prefiro: Patricia Arquette

Faltou alguém?: Kristen Stewart em Para Sempre Alice

Patricia Arquette é a mãe que leva uma vida dura, consegue criar os filhos sabe lá como e no final fica com o maior dos ônus da maternidade, mas nunca se ressente disso. Se Boyhood é sobre o ordinário da vida real, nada é mais real que a atuação dela. Mas muita atenção a Kristen Stewart, que consegue fazer um par com Julianne Moore sem os não só sem os maneirismos que fizeram a gente implicar com ela, mas dando suporte a atuação da protagonista quase que a complementando.

Melhor atriz

Quem deve levar: Julianne Moore

Quem eu prefiro: Julianne Moore

Faltou alguém?: Não sei

Julianne Moore faz o tipo de papel que a academia gosta de premiar, o do sujeito que adoece e definha. Só que ela interpreta um paciente de alzheimer e é de uma sutileza inacreditável. Você acompanha o avanço da doença através da maneira como ela olha para as coisas, e de como o brilho dos olhos dela vai desaparecendo. É tocante.

Melhor ator coadjuvante

Quem deve levar: J. K. Simmons

Quem eu prefiro: J. K. Simmons

Faltou alguém?: Channing Tatum em Foxcactcher e Tony Revolori em Budapeste

Assistam Whiplash e me expliquem como conseguimos acreditar que o monstruoso personagem de Simmons é capaz de chorar uma morte na frente de uma turma que ele trata como lixo e na cena seguinte voltar a tratar a turma como lixo sem com que você ache estranho isso. Muito da complexidade do personagem aparece na atuação. Senti falta de Channing Tatum, de quem eu particularmente não gosto como ator, mas que está muito bem em Foxcatcher e de Tony Revolori, que faz uma parceria maravilhosa com Ralph Fiennes em O Grande Hotel Budapeste.

Melhor Ator

Quem deve levar: Eddie Redmayne

Quem eu prefiro: Michael Keaton

Faltou alguém?: Ralph Fiennes em Budapeste, David Oyelowo por Selma e talvez Jake Gyllenhaal em O Abutre

Redmayne vai ganhar porque faz aquele tipo de papel que a academia gosta, mas não me comprou. Michael Keaton interpretou uma versão dele mesmo que é mais interessante que ele mesmo em todos os outros filmes da sua cerreira, e é preciso coragem pra aceitar esse papel porque exige desprendimento das vaidades que são tema de Birdman. A escalação dele já era um trunfo e ele abrilhanta ela com uma atuação espetacular.

Melhor roteiro adaptado

Quem deve levar: O Jogo da Imitação ou A Teoria de Tudo

Quem eu prefiro: Whiplash

Faltou alguém?: Não sei

Não vi Vício Inerente, então dos que eu vi acho que Whiplash sobra. Porque O Jogo da Imitação é qualquer nota 6, A Teoria de Tudo é pavoroso (e não entendo esse roteiro ser considerado um dos dez melhores do ano) e Sniper Americano tem problemas seríssimos no desenvolvimento dos personagens e é maniqueísta. Whiplash é um tremendo roteiro.

Melhor roteiro original

Quem deve levar: Birdman

Quem eu prefiro: Birdman

Faltou alguém?: Selma

Barbada. Birdman sobra e muito diante dos concorrentes, de tal forma que não vai ter como não rolar pra ele o prêmio. O Grande Hotel Budapeste corre por fora, mas o filme vai ter que se contentar com os prêmios técnicos.

Melhor diretor

Quem deve levar: Alejandro González Iñárritu por Birdman

Quem eu prefiro: Alejandro González Iñárritu por Birdman

Faltou alguém?: Damien Chazelle por Whiplash

É quase como em roteiro. O trabalho do Iñárritu é bom demais e diferente demais dos seus concorrentes. Mesmo concorrendo com Wes Anderson e Richard Linklater ele sobra, e isso não é pouca coisa. Uma pena terem deixado de lado Chazelle.

Melhor filme

Quem deve levar: Birdman

Quem eu prefiro: Boyhood

Faltou alguém?: Foxcatcher (por uma questão de coerência, afinal foi indicado a roteiro e direção)

Forrest Gump é meu filme preferido. Um dia um amigo me perguntou como eu me sinto em relação ao Oscar de 96, em que Pulp Fiction perdeu para Forrest Gump. Eu disse a ele que Pulp Fiction é aquele mulherão que a gente vê passar, acha maravilhosa e cita como referência de mulher bonita, mas que Forrest Gump é a mulher por quem a gente se apaixona e quer passar o resto da vida.

Essa explicação simples é pra dizer que Birdman é um tremendo filme. Disparado melhor que seus concorrentes, mas que Boyhood entrou pro seleto grupo de filmes que me fazem chorar em cada audiência, e ainda por cima é um grande filme também. Meu coração é teu, Linklater. É com teu filme que eu quero namorar, casar e viver feliz para sempre.


Maratona Oscar 2013 – Comentários gerais

24/02/2013
  • Foram 31 filmes no total. Até o dia da indicação eu tinha visto apenas 5 filmes. Os demais 26, vi entre 10/01 e 19/02, numa média de quase um filme a cada dois dias.
  • Dos 31 filmes, 16 eu vi no cinema. Dos que vi em casa, 7 já haviam saído de cartaz, 3 ainda não estrearam no Brasil.
  • Os 31 filmes totalizam 3.774 minutos, ou quase 63 horas de duração.
  • Confirmadas as expectativas, o grande derrotado da noite será Lincoln, com dois ou três prêmios em 11 possíveis. A derrota só será menor se Spielberg ganhar a estatueta como diretor.
  • Por outro lado, Argo sem dúvida vai ser o maior vencedor da noite, com 4 ou 5 prêmios, inclusive o de melhor filme. Vamos esperar para ver se farão alguma menção a não indicação de Ben Affleck.
  • Alguns indicados que não são meus favoritos, mas eu ficaria feliz se ganhassem: Amor e Django (melhor filme); Exceto o Voo, qualquer outro roteiro original indicado; Joaquin Phoenix como melhor ator; De Niro como ator coadjuvante; Emanuelle Riva e Jessica Chastain na categoria de atriz; Jacki Weaver ou Amy Adams como atrizes coadjuvantes; o longa de animação Paranorman; o filme estrangeiro No; a fotografia de Django e a montagem de A Hora Mais Escura.
  • Adele com sua canção “Skyfall” é barbada. Seria bacana se no seu discurso ela mencionasse outros compositores e intérpretes de canções tema de filmes da franquia 007.
  • A lista de indicados a melhor filme está homogênea, mas não dá pra dizer que é brilhante. Tem dois filmaços (Amor e A Hora Mais Escura), cinco bons filmes (Argo, Indomável Sonhadora, O Lado Bom da vida, As Aventuras de Pi e Django) e dois filmes ruins (Os Miseráveis e Lincoln).
  • Naomi Watts, Alan Arkin, Helen Hunt e Denzel Washington são os azarões nas categorias de atuação.

No mais, estarei comentando ao vivo a cerimônia pelo Twitter.


Oscar 2013 – Palpites, pitacos e resmungos

21/02/2013

Já virou uma tradição entre os amigos a Maratona do Oscar. No primeiro ano fomos tímidos e assistimos os indicados a melhor filme. No segundo fomos além e vimos também os que foram indicados por atuação, roteiro, direção, montagem e fotografia. Esse ano enlouquecemos de vez, ampliamos a lista e vimos quase todos os filmes indicados. Vou colocar a lista das categorias contempladas aqui, só para vocês terem uma ideia do barulho: filme, diretor, roteiro, atuação (protagonistas e coadjuvantes), longa de animação, filme estrangeiro, fotografia, montagem, design de produção, trilha sonora, maquiagem, edição de som, mixagem de som, efeitos visuais e figurino. Foram trinta e um filmes assistidos para poder dar conta de palpitar sobre cada uma das categorias.

Nessa lista foram algumas porcarias pesadas, bons filmes e uns dois ou três filmaços. Muito filme que entra por lobby, muita indicação meio sem sentido e não indicações completamente sem sentido. Mas não estou aqui (por enquanto) para reclamar dos membros da Academia (mentira, porque tem um filme que foi injustiçado pra cacete e não vou conseguir me calar quanto a isso) e sim para curtir a premiação intensamente.

Mas antes de começar a palpitar, vamos dar uma passada rápida pelos indicados a melhor filme do ano. Se você quiser uma opinião mais elaborada sobre os filmes, dá uma olhada no  meu perfil no Letterboxd, ou deixa um comentário aí que trabalharemos.

Os Melhores Filmes do Ano

Argo é um filme sobre Hollywood salvando americanos inocentes. Falando desse jeito, parece que estou fazendo pouco do filme, mas não é o caso. Falei porque é importante ter isso em mente para entender o barulho que o filme vem causando nas premiações por onde passa. O roteiro é bom a direção é boa e segura, exceto pela escolha do ator principal. O Ben Affleck diminuiu bastante o filme ao se escalar como protagonista, não só por ele ser um ator ruim, mas por não saber se dirigir. O filme é bom, mesmo com aquele epílogo quase constrangedor e aquela ostentação pueril nos créditos finais.

Em Amor o fim da vida é uma janela com vista para lugar nenhum. Um bruta filme bruto sobre amar até o fim. A direção do Haneke é segura, mantendo o espectador sempre muito próximo dos seus personagens e imerso no processo que faz a personagem de Emanuelle Riva definhar. O roteiro te conta o fim da história quase como uma crueldade. Tocante, com um tema muito delicado, mas sem jamais ser melodramático. Filmaço.

Indomável Sonhadora tem um conjunto roteiro + direção que estabelecem uma lógica interna brilhante e muito bonita. O problema é que a curva dramática do roteiro, “criança que cresce em condições adversas”, é batidíssma. Não desmerece o filme, mas não explica a devoção que muita gente tem por ele. Nada contra ser tão apaixonado pela fita, até tenho amigos que são, mas não acho que ele tá na lista cumprindo a cota de filmes independente, e ter Sundance na bagagem ajuda bastante.

Django Livre é Tarantino sendo Tarantino. Elenco escolhido a dedo, diálogos geniais, situações absurdas e muita referência. Com uma dose cavalar de western spaghetti e outra de blaxploitation o diretor e roteirista retrata uma América escravocrata onde um escravo liberto pode trabalhar para um caçador de recompensas, ir atrás da sua amada e se vingar de todos os brancos que representam o que há de mais detestável na cultura escravocrata no caminho.

Quanto mais eu penso em Os Miseráveis, mais eu tenho vontade de dar uma surra no seu diretor, Tom Hooper. Eu detesto musicais, mas gostei bastante da dinâmica do filme, em que as falas são praticamente todas cantadas, porque assim o filme fica mais orgânico, e não rola aquele esquema bizarro de musicais “eu vou te matar, mas antes vou cantar uma musiquinha e dançar um pouco”. As músicas são belíssimas, e o elenco é ótimo. Mas daí Hopper dirige o filme como quem dirige uma novela da Globo (frase do Vollu que resume tudo) e me impede de pela primeira vez na vida me apaixonar por um musical.

As Aventuras de Pi é um filme visualmente belíssimo, mas com uma mensagem tão batida quanto insossa. Se a premissa do jovem que tem sua fé testada é bonita, o desenvolvimento parece ter sido escrito pelo Bono e a conclusão é tão constrangedora quanto um comediante que explica uma piada ruim. Mas Ang Lee está lá para te sensibilizar e te fazer acreditar na jornada solitária do menino que naufraga tendo apenas a companhia de Deus e de um tigre.

Uma biografia de um herói americano no momento mais importante da sua vida é Spielberg fazendo filme para concorrer ao Oscar. O problema é que em Lincoln ele exagera na pintura elogiosa do biografado, construindo um personagem que não parece um ser humano qualquer, mas um homem superior, que veio ao mundo para salvar a América da escravidão. Forçando a barra ao tentar sensibilizar o espectador e ignorando completamente o papel dos negros no processo, o filme tá nessa lista muito mais pela grife do que pelo que é.

O Lado Bom da Vida é um filme sobre desajustados, muito bonitinho e com uma lógica espertinha. Se apóia no seu elenco, todo muito bem afinado no filme. Mérito do diretor David O. Russel, que fez até Robert De Niro voltar a atuar. O filme tem bons momentos, mas seu maior trunfo para ter sido indicado é Harvey Weinstein produtor famoso por ser uma espécie de Midas do Oscar, tendo no currículo inclusive a façanha descolar uma estatueta para Shakespeare Apaixonado.

A caçada a Osama Bin Laden é retratada com sobriedade e sem pirotecnias em A Hora Mais Escura. Aqui vale a pegada “depois do que nos fizeram, podemos tudo” que justifica a tortura utilizada largamente pela CIA, mas é um bom filme sobre a obsessão coletiva que era achar o terrorista. Trabalho de direção primoroso de Kathryn Bigelow que foge de todos os excessos que um filme como esse poderia carregar na sua bagagem.

Preferências e Palpites

Melhor Maquiagem e Penteado

Quem deve levar: Os Miseráveis

Quem eu prefiro: Os Miseráveis

Faltou alguém?: Anna Karenina

Anthony Hopkins ficou bem caracterizado como Hitchcock, mas o filme não vai além disso. Em Os Miseráveis o trabalho feito para que cada personagem sentisse ao seu modo a passagem dos anos é maravilhoso. Numa lista com apenas três indicados, podiam ter incluído o belíssimo trabalho de Anna Karenina.

Melhor Edição de Som

Quem deve levar: Argo

Quem eu prefiro: Argo

Faltou alguém?: Amor

Aqui os trabalhos são ótimos e qualquer um dos indicados faz jus a indicação. Mas justamente por serem filmes mais realistas, Argo e a Hora Mais Escura saem na frente, com vantagem sutil para o filme do Affleck. Admito que fiquei na dúvida para escolher, mas fiquei com Argo. Faltou uma indicação para Amor, que tem cenas importantíssimas com a ação fora do quadro e apenas o som orientando o espectador, e merecia ter o trabalho destacado.

Melhor Mixagem de Som

Quem deve levar: Argo

Quem eu prefiro: Argo

Faltou alguém?: não

Os Miseráveis fez um oba oba danado com a história de ter gravado ao vivo a cantoria dos atores, mas não deve levar. E é justo, porque se a edição de som de Argo é boa, a mixagem é perfeita, trabalhando inclusive a favor da montagem do filme.

Melhores Efeitos Visuais

Quem deve levar: As Aventuras de Pi

Quem eu prefiro: As Aventuras de Pi

Faltou Alguém?: O Impossível

A Weta é boa de ganhar Oscar, mas seu trabalho em O Hobbit é mais do mesmo que já foi visto em na trilogia Senhor dos Anéis. Só que Richard Parker é real como nenhum outro animal criado digitalmente já foi. A lamentar numa lista que tem trabalhos óbvios como Os Vingadores e Branca de Neve e o Caçador (que não trazem nenhum efeito realmente interessante) a ausência de O Impossível, que tem uma sequência inacreditável com um tsunami.

Melhor Design de Produção

Quem deve ganhar: Anna Karenina

Quem eu prefiro: Anna Karenina

Faltou alguém?: A Viagem

O design de produção de Anna Karenina não é só o mais bonito entre os indicados, mas é também o mais inteligente. Trabalho para aplaudir de pé com gosto, porque te joga com força dentro do universo criado para o filme. Francamente não entendo a indicação de Os Miseráveis, porque com a obsessão do Tom Hooper por planos fechados eu não vi muito além dos rostos dos atores, e o filme podia perfeitamente dar lugar a A Viagem, que cria cinco ambientações completamente distintas e reais (mesmo as futuristas).

Melhor Figurino

Quem deve ganhar: Anna Karenina

Quem eu prefiro: Anna Karenina

Faltou alguém?: A Viagem

Novamente, Anna Karenina tem o figurino mais bonito e inteligente dentre os indicados. Pode parecer implicância, mas Branca de Neve e o Caçador nem devia estar nessa lista, porque o figurino quando acerta é óbvio. Lamentável a ausência de A Viagem que, assim como no Design de Produção, cria figurinos ótimos para as suas cinco tramas paralelas.

Melhor Trilha Sonora

Quem deve ganhar: As Aventuras de Pi

Quem eu prefiro: Argo

Faltou alguém?: O Mestre

As Aventuras de Pi tem longas sequências de silêncio, isso ajuda bastante a trilha. Gosto da de Argo por ser a medida certa do filme, alternando da diversão de Hollywood para a paranóia de Teerã com sutileza. A se lamentar a excelente trilha de O Mestre, composta por John Greenwood, guitarrista do Radiohead.

Melhor Fotografia

Quem deve ganhar: As Aventuras de Pi

Quem eu prefiro: Skyfall

Faltou alguém?: A Hora Mais Escura

Não tinha como eu não escolher Skyfall, trabalho brilhante de Roger Deakins, mas a academia provavelmente vai escolher a fotografia em 3D do filme do Ang Lee. Eu dei pela falta de A Hora mais Escura, que tem uma fotografia discreta, mas muito eficiente.

Melhor Montagem

Quem deve ganhar: A Hora Mais Escura

Quem eu prefiro: Argo

Faltou alguém?: não

Sabem o que é curioso sobre a categoria? Eu posso estar enganado e Argo ganhar, mas está entre esses dois filmes, e ambos tem o mesmo montador, William Goldenberg. Escolhi Argo porque fiquei impressionado com a sequência da leitura do roteiro, que é de bater palma no cinema, mas não vai ser injusto se ela perder.

Melhor Longa de Animação

Quem deve ganhar: Detona Ralph

Quem eu prefiro: Detona Ralph

Faltou alguém?: não saberia dizer

Barbada, porque Detona Ralph é o melhor filme da categoria. Valente e Frankenweenie correm por fora, por ser Pixar, o outro por ser Disney também, mas apesar de serem bonitinhos e divertidos, não fazem sombra a Detona Ralph. Esse ano a categoria estava mais fraca que o habitual, em parte por não haver uma animação da DreamWorks de qualidade disputando, e por que o filme da Pixar era bem fraquinho.

Melhor Filme Estrangeiro

Quem deve ganhar: Amor

Quem eu prefiro: Amor

Faltou alguém?: eu não saberia dizer

Outra barbada. Amor foi indicado a melhor filme, leva esse fácil. No geral, a categoria tá bem fraca. War Witch é um filme ruim, Expedição Kon-Tiki e O Amante da Rainha são irregulares. Só No. poderia fazer frente ao filme do Haneke, mas as chances disso acontecer são remotas.

Melhor Atriz Coadjuvante

Quem deve ganhar: Anne Hathaway

Quem eu prefiro: Anne Hathaway

Faltou alguém?: Frances McDormand, por Moonrise Kingdom

Categoria complicadíssima, porque tá todo mundo bem, exceto a Helen Hunt que para mim está fazendo o papel de Helen Hunt. Amy Adams está fascinante no papel da mulher que domina O Mestre, e meu coração quase foi dela. Só que cada vez que eu ouço a Anne Hathaway cantando que “I had a dream, my life would be so different from this hell I’m living” eu fico arrepiado e meus olhos insistem em ficar marejados. A mulher me arrebatou.

Melhor Ator Coadjuvante

Quem deve ganhar: Qualquer um, mas Robert De Niro, Philip Seymour Hoffman e Christoph Waltz tem um pouquinho de vantagem

Quem eu prefiro: Philip Seymour Hoffman

Faltou alguém?: Leonardo DiCaprio, por Django Livre

Só de ver o De Niro atuando eu fiquei emocionado, como quem recebe de volta em casa um parente que estava distante há muito tempo, mas isso não foi o suficiente. Christoph Watlz repete em Django muita coisa do seu papel em Bastardos Inglórios (que lhe rendeu a estatueta) e embora tenha ficado bom, me pareceu reprise. Mas Philip Seymour Hoffman está impressionante no papel do Mestre, emprestando sua fúria, carisma e doçura ao personagem, que em suas mãos fica tão complexo e crível. Lamento a ausência de DiCaprio, que quando entra em cena em Django joga na sombra todo o resto do elenco.

Melhor Atriz

Quem deve ganhar: Emanuelle Riva

Quem eu prefiro: Jennifer Lawrence

Faltou Alguém?: Não. Tá bom assim

Emanuelle Riva é a mulher mais velha indicada ao Oscar de melhor atriz, e isso vai ser lembrado pela Academia que vai escolhê-la no lugar das jovens e promissoras Lawrence e Chastain. Gosto de ambas, mas a maneira como Lawrence trabalha as variações de postura da sua personagem me encantaram. Naomi Watts e Quvenzhané Wallis correm muito por fora.

Melhor Ator

Quem deve ganhar: Daniel Day-Lewis

Quem eu queria ser prefiro: Daniel Day-Lewis

Faltou alguém?: John Hawkes, por As sessões

Mais uma boa categoria. Bradley Cooper e Denzel Washington correm bem por fora com boas atuações. Hugh Jackman é uma das melhores coisas em Os Miseráveis, cantando e atuando com muita segurança. Joaquin Phoenix  está impressionante, numa atuação física e emocionalmente intensa, que torna a relação principal em O Mestre tão fascinante. Mas Daniel Day-Lewis é o elemento que torna Lincoln minimamente crível, e bem, ele é Daniel Day-Lewis. John Hawkes caía bem nessa lista, com uma atuação tão doce do poeta que vive paralisado e em um pulmão de aço.

Melhor Roteiro Adaptado

Quem deve ganhar: Argo

Quem eu prefiro: Argo

Faltou alguém?: Não me ocorre

Acho que aí só Argo tem força para ganhar o prêmio, principalmente porque não foi indicado a melhor diretor. Eu mesmo, voto por eliminação. As Aventuras de Pi tem aquele final que quase esvazia o filme, Indomável Sonhadora estabelece um universo incrível, mas é cheio de platitudes e tem uma curva dramática muito batida, Lincoln não é verossímil e O Lado Bom da Vida não tem nada demais.

Melhor Roteiro Original

Quem deve ganhar: A Hora Mais Escura

Quem eu prefiro: A Hora Mais Escura

Faltou alguém?: O Mestre

Aqui a brincadeira é outra. Exceto O Voo, que é bem irregular, são todos excelentes roteiros. Mas eu fiquei muito impressionado com o roteiro do Mark Boal, que conta uma história tão atual e que traz uma carga emocional tão grande com muita sobriedade.

Melhor Diretor

Quem deve ganhar: Ang Lee

Quem eu prefiro: Michael Haneke

Faltou alguém?: Paul Thomas Anderson, mas principalmente Kathryn Bigelow

Ang Lee vai ganhar porque a disputa está entre ele e Spielberg, e Lincoln não empolgou tanto quanto se esperava. Só que o trabalho do Haneke é infinitamente superior ao dos demais indicados. O austríaco tem o espectador numa mão e o filme na outra desde o primeiro plano, e conduz a história magistralmente, explorando cada ângulo do apartamento onde se passa a maior parte da trama, usando planos longos e muita ação fora de quadro, numa tentativa de nos fazer parte do de todo o cotidiano da vida dos seus personagens principais. Até entendo a injusta ausência de PTA da lista, mas não terem indicado Bigelow foi um crime.

Melhor Filme

Quem deve ganhar: Argo

Quem eu prefiro:  A Hora Mais Escura

Faltou Alguém?: O Mestre

Dá pra dividir os indicados a melhor filme em quatro grupo: os filmaços (Amor e A Hora Mais Escura), os filmes bons (Argo, Indomável Sonhadora, O Lado Bom da Vida e As Aventuras de Pi e Django) a decepção (Lincoln) e Os Miseráveis. Eu não vou me aborrecer se qualquer um dos filmes dos dois primeiros grupos ganhar. Mas como listei, Amor e A Hora Mais Escura são os melhores concorrentes da lista, e particularmente gosto mais do segundo, escolha motivada pelo meu gosto pessoal pelo argumento de cada um dele. Só que Argo é um elogio a Hollywood, dirigido por um sujeito que vem conquistando aos poucos o espaço de queridinho no meio e produzido pelo George Clooney, e essa é a receita do sucesso do filme na temporada de premiações.

O Mestre foi o filme mais injustiçado esse ano. Se indicado fosse, seria o melhor filme da lista com alguma folga.

É isso, minha gente. Dei meus palpites, minhas orelhadas e pitacos. A caixa de comentários está aberta para críticas, manifestações de apoio, debates, discussões acaloradas, discussões, choro e ranger de dentes.


A Maratona do Oscar 2013

14/01/2013

Como já é uma tradição, eu vou ver os filmes indicados ao Oscar desse ano.

Tradição que tem três anos, na verdade. No primeiro ano, o Leitor Oculto sugeriu e Tom e eu topamos ver os filmes indicados ao Oscar de melhor filme. No ano seguinte decidimos expandir um pouco e vimos todos os filmes mencionados nas seguintes categorias: filme, diretor, ator e coadjuvante, atriz e coadjuvante, roteiros originais e adaptados, montagem e fotografia.

Esse ano fomos mais ousados e decidimos incluir na lista anterior figurino, direção de arte, maquiagem, efeitos visuais e filme estrangeiro.

São 32 (trinta e dois, isso mesmo) filmes para ver em 46 dias (período que vai do dia da indicação ao dia da premiação). Ok, alguns desses eu já tinha visto, foram lançamentos do último verão americano, ou mesmo filmes que chegaram por aqui agora.  A lista de todos os filmes que vou assistir está aqui, numa planilha que eu montei de todo o coração para quem quiser usar como guia.

A grande alegria desse ano é que a maior parte dos filmes indicados nas categorias principais poderiam ser vistos no cinema, que é lugar de ver filme.

Bem, na lista aí eu já tinha visto Os Vingadores, Prometheus, Skyfall, O Hobbit, Espelho Espelho Meu e As Aventuras de Pi no cinema, antes mesmo de sair a lista de indicados.

Aí assim que saiu a lista, eu me antecipei em ver os filmes que já estavam em cartaz ou que já tinham saído das salas. Então entre o dia 10/01 e o dia 17/01, eu pretendo ver 12 filmes. No momento em que publico esse post, já foram seis.

Ao longo da maratona eu devo escrever sobre um filme ou outro. Até gostaria de escrever sobre todos, mas umas porcarias tipo Branca de Neve e o Caçador não merecem o esforço. Mas prometo que, se não escrever sobre cada um individualmente, faço um texto falando de cada um dos nove indicados a melhor filme.

Agora vocês me dão licença, porque eu tenho uns filmes pra assistir.


As sinopses óbvias

09/01/2013

Ainda sobre O Som ao Redor, me peguei pensando no quão óbvia a sinopse que foi veiculada é. Imagina se a moda pega:

O Senhor dos Anéis – A Sociedade do Anel: a presença de um Anel mágico deixado de herança por seu tio vai mudar a vida de um hobbit…

Janela Indiscreta: após quebrar a perna, fotógrafo passa a espiar os vizinhos e vê sua vida mudar ao testemunhar aquilo que acredita ser um assassinato…

Ben-Hur: após ser traído por seu amigo, Ben-Hur vê sua vida mudar ao ser feito escravo…

E o vento levou…: quando começa a Guerra de Secessão, jovem sulista de origem abastada vê sua vida mudar…

Tentem vocês também e deixem aí na caixa de comentários.


O Som ao Redor

08/01/2013

Quem são seus vizinhos? Quem faz parte da comunidade que te cerca? Como ela foi formada? Como cada uma das pessoas que mora ao seu redor chegou até aí? São perguntas difíceis de serem respondidas, né? Então vou sacar uma que vai ser bem mais fácil de responder: como seus vizinhos te afetam?

O Som ao Redor (Brasil, 2013) mostra o dia da comunidade, mas não como entidade única e orgânica, e sim como uma colagem de pessoas diferentes que vez ou outra interferem ou sofrem interferência do microcosmos ao seu redor. Nesse sentido, dá para dizer tranquilamente que o ritmo como a história é conduzida, com seus planos longos e contemplativos trabalha muito bem para entramos no cotidiano da dona-de-casa ordinária que tem no cachorro do vizinho seu algoz, ou na vida do corretor de imóveis por força das circunstâncias. Vale ressaltar também a primorosa edição de som, que faz do silêncio ou dos pequenos ruídos elementos fundamentais para a construção de um cotidiano onde aparentemente nada acontece.

Sim, o cotidiano dos personagens é aparentemente estático, monótono. Como na vida real, reviravoltas não acontecem o tempo inteiro, como as pessoas esperam que seja num filme. Em O Som ao Redor as vidas seguem seus cursos esperados, cada qual com sua cadência lenta. Mesmo o surgimento da milícia, que a sinopse do filme trata como o ponto de virada na trama, em pouco afeta o dia-a-dia daquelas pessoas, que seguem suas vidas pacatas, envolvidas com seus próprios problemas.

Muito bacana ver um filme com tamanho apuro técnico (e me perdoem o ufanismo, mais legal ainda ele ser brasileiro). Um fotografia lindíssima, que contribui para a construção de planos impressionantes, sóbrios, mas tão cheios de beleza e força, que me arrisco a dizer que o filme não tem nenhum plano desnecessário ou descartável.

Tremendo filme, muito feliz na ideia de mostrar o indivíduo a partir do coletivo, para voltar a inseri-lo no coletivo. Realização muito feliz do cinema pernambucano e candidato desde já a melhor filme nacional do ano.

Cotação: 7 de 7 cachorros latindo.

Um adendinho: tô até agora tentando entender a sinopse “A presença de uma milícia em uma rua de classe média na zona sul do Recife muda a vida dos moradores do local. Ao mesmo tempo em que alguns comemoram a tranquilidade trazida pela segurança privada, outros passam por momentos de extrema tensão.” Hein?!

 


Oscar 2012

26/02/2012

Apesar da escassez de posts, graças a insistência do Leitor Oculto teremos novamente um post sobre o Oscar, como nos moldes do ano passado.

Este ano decidimos ampliar um pouco a lista dos filmes a serem assistidos. Como não dá para assistir a todos os filmes indicados, optamos pelos filmes que contemplavam as seguintes categorias: melhor filme, melhor diretor, melhor ator / atriz, melhor atriz / ator coadjuvante, melhores roteiros (original e adaptado), melhor montagem e melhor fotografia.

Vale o que rolou no post do ano passado. Uma resenha rápida dos filmes, depois meu palpite e meu preferido em cada categoria. Decidi também fazer a minha queixa e dizer quem eu acho que faltou na lista de indicados daquela categoria. Desculpem desde já o jeito corrido do post, mas em em cinco dias eu assisti dezessete filmes, varei uma noite vendo filmes e agora o post estou atrasado.

Os Filmes

A sensação que tive depois que vi O Artista foi de que vivemos num mundo de hipsters. Só isso explica o frisson em volta do filme. A fita é bonita, os atores são um barato e a ousadia de fazer um filme mudo e em preto branco tem que ser reconhecida, mas e daí? Então só posso concluir que nos tornamos fãs do alternativo e do vintage, mesmo que isso ás vezes pareça um tanto exagerado.

A Árvore da Vida é um filme escrito e dirigido pelo Terrence Malick, que pra mim é um tremendo diretor, que usa umas alegorias do cacete, e ás vezes escreve uns poemas visuais, tipo Além da Linha Vermelha. Mas desta vez ele exagerou na dose, e entregou um filme pretensioso e arrogante. Claro que esta é a minha opinião, mas o filme é inacessível e hermético.

O Spielberg fez Cavalo de Guerra para concorrer ao Oscar. Sim, concorrer, porque ele sabia que não ganharia om aquele filme. Eu fui ver porque adoro filmes de cavalo e porque eu esperava que houvesse uma cena como a do desembarque na Normandia, de O Resgate do Soldado Ryan, mas numa trincheira da Primeira Guerra. E Spielberg atendeu ao meu desejo.

Há algum tempo eu não via um filme sobre o homem comum tão bacana quanto Os Descendentes. A direção é excelente, e o Clooney, quem diria, dá o tom exato ao filme. Não se enganem com o trailer te faz acreditar que o filme é um dramalhão, quando na verdade ele está longe disso. Um filme bonito, afinal.

Histórias Cruzadas foi uma grata surpresa. Um filme muito simpático, que consegue mexer com um tema espinhoso e ao mesmo tempo fazer um filme leve, sem diminuir a importância da discussão. Além disso, o filme é sensível, mas sem ser piegas. Merece uma menção honrosa o elenco, que está todo de regular (Emma Stone) a ótimo (Bryce Dallas Howard, Viola Davis, Octavia Spencer).

Só a paixão dos americanos por beisebol explica a presença de O Homem que Mudou o Jogo na lista. Filme de sessão da tarde, com todos aquela parada de superação e de beisebol e Brad Pitt fazendo as mesmas caras e bocas que fez em Bastardos Inglórios. Não que o filme não seja divertido, mas o problema é que ele é apenas  um pouquinho divertido.

A Invenção de Hugo Cabret é um dos filmes mais bonitos que eu vi nos últimos anos. Eu fiquei chorando por mais de meia hora depois que o filme acabou, porque aquela história me tocou de verdade. Só Martin Scorsese poderia dirigir este filme. A maneira como ele traz elementos clássicos do cinema, enquanto ao mesmo tempo usa o 3D como recurso narrativo é impressionante. Meu preferido, não escondo.

Woody Allen tem uma extensa filmografia e na maior parte dela os protagonistas são homens inseguros, cheios de complexos e com dificuldades para se socializar. Em Meia-Noite em Paris não é diferente. Só que dessa vez ele decidiu fazer um filme com verniz intelectual, mesmo que isso pareça esnobe, e é esnobe para cacete. Não bastasse isso, a caricatura que ele faz dos artistas do começo do século XX é irritante.

Tão Forte e Tão Perto são os EUA no divã, tentando entender o 11 de Setembro, mas tudo visto através de um garoto peculiar, cujo pai morreu no atentado. A facilidade com que a história, por mais inverossímil que ela pareça ás vezes, te envolve é incrível.

Palpites e preferências

Melhor Montagem

Quem deve levar: O Artista

Quem eu prefiro: Os Homens que Não Amavam as Mulheres

Quem faltou: Contra o Tempo

O Artista tem 1:40h de duração, mas você pode jurar que é um curta, tamanha a sua agilidade. Por outro lado, A montagem de Millennium resolve um problema do roteiro e ainda melhora o filme. Eu colocaria Contra o Tempo na lista, porque é um filme em que o tempo é importante e o montador teve um cuidado absurdo.

Melhor Fotografia

Quem deve levar: A Árvore da Vida

Quem eu prefiro: A Invenção de Hugo Cabret

Quem faltou: Os Descendentes

Os ângulos esquisitos da câmera de Árvora da Vida devem convencer a academia e levar o prêmio, embora eu prefira a câmera que segue Hugo pelos túneis da estação de trens e dá a cada cantinho de Paris uma cor pertinente. A câmera em Os Descendentes nos aproxima da história, dando a exata dimensão de drama do homem comum que precisamos ter.

Melhor Roteiro Original

Quem deve levar: O Artista

Quem eu prefiro: A Separação

Quem faltou: Toda Forma de Amor

O Artista deve levar essa, e é até razoável que se premie o filme, mas eu prefiro o drama iraniano, que é uma tremenda história, cheia de reviravoltas interessantes. Mas não dá pra esquecer de Toda Forma de Amor, filme que roubou meu coração.

Melhor Roteiro Adaptado

Quem deve levar: Os Descendentes

Quem eu prefiro: Os Descendentes

Quem faltou: Histórias Cruzadas

O Roteiro de Os Descendentes é a base que permite que Clooney e Payne façam o excelente trabalho que fizeram. Mas cadê a adorável  história de Histórias Cruzadas e seus personagens tão vivos?

Melhor Ator Coadjuvante

Quem deve levar: Max Von Sydow de Tão Forte e Tão Perto

Quem eu prefiro: Kenneth Branagh de Sete dias com Marilyn

Quem faltou: Philip Seymour Hoffman, de Tudo pelo Poder

Max Von Sydow tem mais chances, mas no calcanhar dele vem Christopher Plummer. Ambos são excelentes, mas tenho mais simpatia pelo trabalho de Plummer. Melhor que os dois só Branagh, no papel de um irritadiço Laurence Olivier. Mas faltou Seymour Hoffman, que é a melhor coisa no filme do George Clooney, fazendo o papel do chefe da campanha a presidência, e mentor do protagonista.

Melhor Atriz Coadjuvante

Quem deve levar: Octavia Spencer, de Histórias Cruzadas

Quem eu prefiro: Octavia Spencer, de Histórias Cruzadas

Quem faltou: Bryce Dallas Howard, de Histórias Cruzadas

Aqui que vença a melhor. No papel de empregada desaforada, Octavia afeta a gente, para bem ou para mal. Curiosamente ela é a segunda melhor coadjuvante do filme, cargo que cabe a Bryce Dallas Howard, que rouba a cena e acaba assumindo um natural papel de vilã no filme. Uma atuação tão bacana que você mal lembra que ela era aquela Gwen Stacy lesada em Homem Aranha 3.

Melhor Atriz

Quem deve levar: Viola Davis, por Histórias Cruzadas

Quem eu prefiro: Michelle Williams, por Sete dias com Marilyn

Quem faltou: Shailene Woodley, de Os Descendentes

Como não se apaixonar pela atuação de Michelle Williams, que consegue encarnar a ingenuidade e sensualidade de Marilyn Monroe e tornar tudo tão crível, que você passa a imaginar Marilyn com as feições de Michelle. Seria justo também premiar Viola Davis e sua excelente atuação, porque não é tão fácil interpretar uma mulher que carrega dentro de si tanta mágoa, mas mesmo assim não é amarga, e quando desabafa, o faz com serenidade. E se no ano passado indicaram a novata Jeniffer Laerence por uma atuação apenas correta, não vejo motivos para não indicar a novata de Os Descendentes, que dá um tom certo para a adolescente que oscila entre a revolta e a compaixão pelo pai. Ah, e não venham me falar daquela caricatura que Meryl Streep fez.

Melhor Ator

Quem deve levar: Jean Dujardin, de O Artista

Quem eu prefiro: George Clooney, de Os Descendentes

Quem faltou: Leonardo Dicaprio, por J. Edgar

Dujardin está ótimo, mas não faz a minha cabeça a sua atuação. Eu fiquei admirado com a sutileza da atuação do Gary Oldman, mas ele eu sabia que era bom ator, bastava achar um bom filme, diferente de Clooney que sempre foi um canastrão. Mas os Descendentes é um filme sobre o homem comum (já falei isso umas 4 vezes, né?) e Clooney é o homem comum, deslocado de sua rotina, cansado e desorientado. Você vê nos olhos dele a confusão que está na sua cabeça.   Estranho a ausência do Leonardo Dicaprio, que com uma excelente atuação evita que J. Edgar caia no exagero.

Melhor Diretor

Quem deve levar: Michel Hazanivicus, por O Artista

Quem eu prefiro: Martins Scorsese, por A Invenção de Hugo Cabret

Quem faltou: Stephen Daldry, por Tão Forte e Tão Perto

Hazanivicus não é o melhor entre os indicados, mas é o homem da vez. Payne nos brindou com um filme ótimo, que é ótimo essencialmente graças a uma boa direção. Mas só Martin Scorsese poderia dirigir Hugo Cabret, porque você precisaria ser Marty para ter a sensibilidade necessária para fazer do filme a homenagem emocionante que ele acaba sendo. Scorsese dedicou sua carreira principalmente a filmes violentos, cheios de mafiosos, gângsters e outros tipos de bandidos para surpreender a todos com um filme tão  afetivo, quase lúdico e esse ser o seu filme mais autoral. Podiam ter feito a decência de indicar Daldry, que nos faz mergulhar na melancolia do pós 11/9 com maestria.

Melhor Filme

Quem deve levar: O Artista

Quem eu prefiro: A Invenção de Hugo Cabret

Quem faltou: Toda Forma de Amor

Infelizmente vai levar O Artista, que é um filme simpático, mas está longe de ser o meu favorito. Na verdade, essas listas com dez filmes acabam tendo uns filmes bem fracos. Este ano por exemplo, dava para fazer uma lista com Hugo Cabret, Os Descendentes, Histórias Cruzadas, Tão Forte e Tão Perto e O Artista. Mas se forem incluir dez filmes, poderiam ter feito uma lista com dez (e não nove) e terem incluído o belíssimo Toda Forma de Amor, filme tão bonito quanto importante nestes tempos.