Conto bobo [II]

05/01/2014

O Pupilo respirou fundo, abaixou a cabeça e fitou seus joelhos dobrados e pernas cruzadas. Voltou a olhar na direção do Mestre e só conseguiu dizer “Mas como?”.

O Mestre também respirou fundo, mas sua respiração não poderia ser mais diferente que a do rapaz. O Pupilo bufou e respirou pesadamente, como se dentro de si houvesse um mar em pavorosa ressaca, arrebentando ondas furiosamente na praia. A respiração do Mestre era suave como um pequeno córrego. O modo como um homem respira diz muito sobre como ele se sente.

“Entenda que a vida é um grande acordo. Estamos diante de um universo de convenções. Escolhemos acreditar que as coisas são como elas são, mas esquecemos que na verdade o que vemos está filtrado por aquilo que chamamos de percepção.”

“Mestre, então podemos perfeitamente dizer que o universo existe, porque todos podemos percebê-lo. Mesmo um homem privado de um ou outro sentido é capaz de sentir o que está ao seu redor.”

“Mas jovem, você fala de um universo percebido por uma pessoa, porque cada indivíduo, cada consciência, vai ter a sua própria interpretação para o que está vendo. Por isso digo que o universo percebido é uma convenção.”

“Mestre”, e a essa altura o pupilo começava a se exaltar, “eu afirmo que há ao meu redor um universo. Posso ver o verde das folhas naquela árvore, posso sentir a textura da grama que toca meus pés, posso sentir o vento quente e úmido em meu rosto. O senhor pode não estar sentindo, mas eu estou, e afirmo que tudo isso existe realmente”.

O Mestre se permitiu rir de maneira afável para o Pupilo. Amava-o como um pai ao seu filho. Encontrava grande prazer em poder ensinar ao menino o que sabia.

“Ora”, disse o ancião ainda sorrindo, “você não se acha presunçoso demais ao afirmar que uma verdade que apenas você vê é a única verdade possível?”.

“Mas não foi isso que eu disse.”

“Mas é assim que me parece. Você adotou a sua opinião como a verdade do mundo.”

“Mas se estamos falando de um universo particular, por que ele não pode ser sustentado sobre as minhas verdades?”

“Ele pode, não posso negar. Mas num universo em que todas as verdades foram estabelecidas por um único indivíduo, que espaço há para a troca, para o aprendizado?”

O Pupilo apenas olhou para baixo, acenando levemente, concordando com o Mestre. Àquela altura, começou a chorar baixinho.

“Quando vim para cá escolhi deixar amigos, posses materiais e o convívio com minha família. Abandonei tudo o que eu tinha, e escolhi buscar o conhecimento que me proporcionaria a felicidade. Agora tenho ainda menos do que tinha quando cheguei aqui.”

“Sim, Pupilo. Eu entendo a sua dor.”

“Como ser feliz sem nada, Mestre? Que caminho trilhar se não tenho mais nada em que acreditar?”

O Mestre sorriu gentilmente, sabia que ele aquele seria o ensinamento mais importante, mas também o mais doloroso que ele teria de passar ao seu discípulo.

“É apenas depois de perder tudo que estamos livres para entender que mais importante que os destinos, são os caminhos.”

Inspirado pela vida, pelas leituras que andei fazendo e pelas conversas que andei tendo. E por Tyler Durden.


Conto bobo

02/05/2011

O Presidente está sentado em seu gabinete, uma sala conhecida pelo seu formato, onde tudo é imponente, da tapeçaria aos móveis. Sentado atrás de uma pesada escrivaninha, ele lê um relatório pouco importante, mas sobre o qual vai ter que responder algumas perguntas no dia seguinte. Há um silêncio sepulcral na sala, interrompido por três batidas suaves e rápidas na porta.

Sem esperar por respostas o jovem secretário entrou no gabinete. O Presidente o olha, encara a gritante ansiedade do assessor e com um olhar o deixa a vontade para falar:

“Senhor, a fonte estava certa. Localizamos o nosso homem exatamente onde a informação afirmava que ele estaria. A informação foi precisa até com o cômodo em que ele estaria.”

“Prossiga” e pela primeira vez se ouve a voz do presidente, grave e imponente, como se estivesse permanentemente discursando para uma multidão “Já temos algum relatório?”

“Seguimos as ordens, Senhor. O Alvo Zero foi abatido sem que tivéssemos nenhuma baixa. O relatório preliminar diz que ele parecia estar entregando a própria vida.”

“Colaterais?”

“Não, Senhor. Nenhum dano colateral material, humano ou diplomático.”

O Presidente virou se para a janela. Sua mente percorreu o extenso jardim da Casa Presidencial, um dos seus gestos habituais antes de dar alguma ordem. O Assessor procurou se recompor enquanto o Chefe estava de costas.

“Avisem a imprensa. Digam que vou falar em no máximo uma hora. Cadeia nacional.”

“Senhor, eu trouxe para o senhor um modelo que…”

“Eu imagino o que diga o modelo” interrompeu o Presidente, “Mas gostaria de ouvir a sua opinião.”

“O fenômeno vai se repetir, senhor. A comoção causada pela captura do Alvo Zero transformará o Senhor em um herói ocasional. Há inclusive a possibilidade que os seus oposicionistas se curvem ante o seu feito. O Novembro será ótimo.”

“Ótimo. Prepare tudo para o meu pronunciamento. Obrigado pela notícia.”

“Apenas uma coisa, Senhor?” o Assessor falou com a voz quase trêmula “Eu gostaria de informar que o Serviço Secreto e as Forças Armadas estão muito desconfiados da fonte da informação. Estão fazendo perguntas e pressionando pessoas. Não queremos esses homens nos nossos calcanhares, queremos?”

O Presidente sorriu. Voltou a olhar para o Assessor. Seus olhos miúdos e negros faiscavam. Seus dentes muito brancos lhe davam uma aparência amável, mas imponente. “Você sabe ou conhece alguém que saiba a fonte da informação?”

O Assessor fez menção de responder, mas o Presidente apenas o interrompeu com um aceno e disse “Fique tranqüilo. Ninguém tem essa informação.”

O Assessor saiu. O Presidente ainda aguardou mais alguns instantes, tentando ouvir os passos do rapaz se afastando. Segundos depois, ele vira-se para a direita e sentado no sofá está um homem que até então ninguém havia percebido ali. Um homem grande, corpulento, com longos e muito bem penteados cabelos negros um uma barba cerrada feita quase cirurgicamente. Seus olhos são castanhos amendoados, e ele veste um terno muito elegante e bem cortado. Qualquer que visse o homem saberia que se trata de um homem muito rico e de muito bom gosto.

“Eu ainda estou espantado. Admito que, embora não fizesse o menor sentido, eu acreditei em você desde o começo. Mas como diabos você sabia exatamente em que cômodo o Alvo Zero estaria?”

O homem riu da expressão usada pelo Presidente. “Não se preocupe com meus métodos, se atenha aos seus planos para o futuro. E ainda lhe restam dois desejos.”

 Inspirado por isso aqui.