Ficção [III]

30/04/2011

Quando o passar do tempo é um problema, sua mente começa a te pregar peças, tentando te dar a sensação de que o seu tempo está sendo bem aproveitado. E graças a isso eu acordei antes do sol nascer, mesmo tendo dormido muito pouco e muito mal.

Sentei-me na inútil poltrona de leitura que Julia insistiu que eu colocasse no meu quarto. De frente para poltrona, há uma enorme janela, na qual nunca quis colocar uma cortina, porque gosto da luz natural, e de alguma forma o sol não entra pela janela. Entre a poltrona e a janela fica a minha cama, ainda desarrumada da noite, ainda ocupada.

Desvio meu olhar para a mulher. Sinara (ou Cynara, seja lá como se escreve) foi como ela disse que se chamava. Fez questão de sentar próxima de mim no balcão do bar, puxou conversa e em menos de dez minutos me fez um elogio, embora eu não estivesse dando muita atenção a ela. Ela está deitada de lado, nua, quase em posição fetal e protegendo a barriga.

A barriga.

Isso explica porque ela não bebia, porque ela puxava o ar entre os dentes cada vez que eu acendia um cigarro. Mais, explica também a estranha rigidez dos seus seios, e a posição pela qual ela optou. Pobre mulher. Espero sinceramente que ela não esteja procurando por um pai, porque não me falta apenas vocação. Meu problema é muito maior.

Alguma coisa me compadeceu naquela imagem. Diante de mim havia uma mulher que em pouco traria ao mundo uma criatura viva. Não havia ironia maior do que eu macular aquele corpo, aquela matriz. Me senti desconfortável, um invasor, um agressor. O ventre daquela mulher era o lugar de uma vida nova, não devia ter sido tomado por alguém já em franca decadência, muito mais perto da morte do que ele perto da vida. Aquele ventre era para nascimento, não para morte.

Foi o barulho do isqueiro que a despertou. Ela abriu os olhos devagar, virou as costas para a janela e permaneceu deitada. Seus olhos me fitaram nos olhos e ela percebeu que eu olhava para a sua barriga e uma faísca se acendeu no seu rosto. Ela se sentou na cama e ficou me encarando com um par de olhos envergonhados e ansiosos. Eu poderia tê-la tranqüilizado, mas apenas disse que não deveríamos mais no ver.

E enquanto ela se trancava no banheiro para tomar banho e se recompor, eu senti algo que acredito ter sido remorso.

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Ficção [II]

21/06/2010

Conheci Julia em uma bela manhã ensolarada de domingo. Não que eu goste de manhãs ensolaradas, principalmente porque nas manhãs de domingo eu normalmente estou dormindo. Acho os dias entediantes, especialmente as monótonas manhãs de domingo. Sempre preferi as noites de segunda, que são desertas e silenciosas.

De qualquer forma, eu tinha prometido a um grande amigo (não fosse por isso não teria ido) tomar café da manhã em um parque da cidade com ele e a noiva. Ele é meu amigo, eu o conheço bem, mas era óbvio que haveria uma surpresa desagradável me esperando. Fosse uma conversa sobre hábitos mais saudáveis, fosse uma conversa sobre como eu deveria voltar a estudar. A verdade é que o Plínio era uma das poucas pessoas que ainda se preocupava comigo e fazia questão de manifestar isso. Foi um dos poucos a não me chamar de misantropo com o passar dos anos, um dos poucos que tinha coragem de me visitar em casa.

Cheguei atrasado, a cabeça ainda um pouco zonza. A luz do sol me incomodava, e antes de chegar à mesa eu jurei a mim mesmo que não me sentaria no sol. Plínio me conhecia, estava me esperando em uma mesa debaixo da sombra de uma puta árvore. A imagem era até um pouco cômica, Plínio lá com um chapéu meio ridículo, rindo e acenando para mim, Lúcia, a noiva dele, sorrindo para mim sem me olhar, com a cabeça meio reclinada e uma terceira pessoa, de costas, da qual eu só conseguia ver o rabo de cavalo vermelho cor de sangue seco.

Se existe um clichê que eu gosto é aquele do “e seu eu tivesse feito o contrário”, também conhecido como “e naquele momento eu tomei uma atitude que definiu toda a minha vida”. Se eu tivesse me aproximado da mesa, sem me sentar, dado um gole no café do Plínio (mesmo estando aquela merda com adoçante, ou açúcar mascavo), olhado no fundo dos olhos dele e da Lúcia, sem olhar para a cara da criatura de cabelos vermelhos cor de sangue seco e dito para os dois “Plínio, por que você insiste em me apresentar essas amigas da Lúcia mal amadas e mal comidas, como se eu tivesse o maior pau do mundo? Você acha que eu sou um grande fodedor, mas é só porque eu preferi não colocar meu pau no jarro de mulher nenhuma. Vou nessa. Qualquer coisa me liga.” tudo teria sido bem diferente.

Mas eu nunca tinha comido uma ruiva de verdade na minha vida, decidi que aqueles seriam os primeiros pentelhos ruivos que eu veria na minha vida. Se eles chegaram ao ponto de me apresentá-la, é porque a pobre moça estava desesperada. Não gosto de me gabar sobre essas coisas, até porque minha vida sexual nunca foi a de um grande garanhão, mas se tem uma coisa que eu sei fazer é me aproveitar da necessidade ou fragilidade de uma mulher para tirar a roupa dela. Decidi naquele momento que o quanto antes eu a comeria.

Idiota, Julia me comeu muito antes


Ficção

15/09/2009

Seis meses, a mulher falou enquanto eu pensava se os peitos dela eram realmente empinados daquele jeito, ou se aquele ângulo era fruto de um daqueles sutiãs de armação de arame. Eu não teria essa dúvida se a mulher tivesse seus vinte e poucos anos, teria a certeza de que a rigidez era real, e que talvez eles fosse assim, mesmo sem sutiã.

Uns milissegundos depois os peitos dela voaram do meu pensamento e finalmente o número bateu. Seis meses. Seis meses são cento e oitenta dias, cada dia tem 24 horas então 24 vezes 180… Porra, a mulher falou seis meses e eu aqui perdendo tempo fazendo contas, como se ao longo da minha vida eu tivesse sido um Stephen Hawking. Ás vezes me espanto com certos impulsos idiotas que eu tenho, e divagar sobre os peitos de uma bela balzaca na situação mais inusitada do mundo é apenas um desses impulsos.

Só que não dá para alimentar a ilusão de abstrair um número, quando ele se torna tão relevante para você. É mais ou menos como aquele telefone que você sempre liga. Já aconteceu d’eu estar viajando, e ao tentar ligar para casa eu acabei ligando automaticamente para o telefone de um amigo meu, com quem eu falava bastante na época. Mas isso foi antes do celular e do tempo transformar a nossa amizade em nada.

Não sou tão velho assim, apenas vivi o suficiente para saber que as coisas tendem a acabar. Mentira. Eu nasci velho e sei que tudo no universo acaba, até a energia dele um dia vai se dissipar até não sobrar porra nenhuma. Mas isso é física, e eu sempre fui péssimo em física. A física só me servia para açucarar roteiros de ficção científica. Tudo é finito, não há mal que sempre dure e nem bem que nunca se acabe. As coisas se quebram, as plantas morrem. Só o plástico era infinito, mas parece que até ele perdeu um pouco da sua longevidade.

E é pensar sobre o tempo que me leva de volta aos seis meses, os seis malditos meses anunciados pela balzaquiana dos peitos empinados e com um ar maroto. Não confundam maroto com sacana. Ela não tinha um sacana porque eu não estava num filme pornô, embora eu provavelmente trepasse com ela se houvesse chance. Digo mais, eu flertaria com ela se houvesse chance. O problema é que ela só era jovial, não era safada, pelo menos era o que me parecia.

A primeira conta realmente útil que eu fiz com os seis meses foi