SWU é para jacu – parte 4

02/01/2014

Eu sou um sujeito cético. Desconfio de fenômenos misteriosos que as pessoas dizem testemunhar, e até desconfio de certas ciências. Mas jamais esquecerei o que meus olhos viram naquela noite. Quando o Rage Against the Machine subiu ao palco, eu vi um homem ficar invisível.

Recapitulando: litros de chimarrão, café, energético e comprimidos de guaraná proporcionaram ao Bill a maior ingestão de cafeína que alguém pode tomar de uma vez. A energia era tanta, que ele começou a vibrar muito rápido, tão rápido que ele simplesmente desapareceu. Eu poderia dar a explicação física sobre como ele passou a vibrar numa frequência que o olho humano não captava, mas a verdade é que naquele momento Bill estava transitando entre diferentes planos da existência.

O grande problema é que quando ele reaparecia no nosso plano, ele acabava esbarrando nas pessoas que tentavam assistir o show. Então passei boa parte do show me desculpando com quem estava em volta. E sem necessidade, porque quase todos estavam tomados pela comoção de presenciar um fenômeno único e fantástico.

Quando o show acabou, Bill parecia menos energizado, e demos uma volta pelas belíssimas instalações do evento. 5 minutos depois desistimos e resolvemos ir embora. Assim que sentou no carro, Bill desmaiou de sono. Eu me ocupei de ligar para hotéis e pousadas da região. Para tentar conseguir onde dormir.

Sim, foi exatamente isso que você entendeu. Era madrugada, estávamos a quinhentos quilômetros de casa, e não tínhamos a menor ideia de onde iríamos dormir.

Liguei para os hotéis, pousadas, motéis, pensionatos e puteiros da região, mas nenhum deles tinha vaga. Ora, longe de nós desprezar a portentosa Itu, mas não dava pra achar que a rede hoteleira da cidade desse conta de um evento daquele porte, mesmo que o evento tivesse um camping sustentável onde você podia pagar R$ 6,00 por uma garrafinha (de plástico) de água mineral.

Com a sua calma característica, Tiozão proferiu pela primeira vez aquela frase que seria ouvida novamente naquela noite: “agora fodeu a porra toda”. Mas Bill subitamente acordou e disse com um tom que nos encheu de coragem: “te acalmem, pombas! Vamos para São Paulo, acharemos um hotel lá”.

Ele só não contava que talvez fosse tão difícil achar São Paulo.


SWU é pra jacu – parte 3

19/09/2012

(Se você só chegou agora, começa por aqui e depois vai aqui)

Acredito que todos têm uma habilidade latente que podemos aprimorar ao longo da vida. O Tiozão tem a incrível habilidade de falar palavrões em sequência como se fossem todos um só, mas com bastante clareza. É difícil explicar, mas posso garantir que é um negócio engraçado e curioso de se ver.

voando baixo, rumo a sabe lá onde

E foi uma sequência dessas que o careca soltou quando Silvia nos disse que no meio do breu daquela estrada distante, havíamos chegado ao nosso destino. Não esperávamos que o evento fosse na beira da estrada, mas naquele lugar não havia nenhum indicativo de que havia por ali um evento como o SWU. Foi por uma questão de fé que continuamos naquela estrada, esperando que em algum momento um romeiro a caminho de Aparecida nos mostrasse um cartaz com alguma frase de incentivo, ou nos desse um mapa.

Alguns minutos depois, avistamos do outro lado da estrada uma intensa mov imentação de veículos. Havíamos descoberto a saída, agora bastava acharmos um retorno, mas tinha um bem perto, uns 15 quilômetros a frente. Percorremos o curto trecho e paramos, já na outra pista, na movimentação que achávamos ser a entrada que levava ao SWU, mas era só uns policiais parados na estrada, decidimos perguntar se realmente estávamos no caminho certo e o escolhido para descer do carro fui eu.

Naturalmente eu desci do carro e perguntei, com meu tom de voz de bom moço e tentando atenuar meu sotaque carioca, se estávamos próximos da entrada da fazenda Maeda, o policial me encarou se aproximou de mim devagar e num flash eu vi a besteira que eu tinha feito. Enquanto o policial se aproximava eu encolhi meus ombros para me preparar para o tapa que eu levaria no pé-do-ouvido, enquanto segurei a maçaneta para deixar o policial revistar o banco de trás do carro em busca de algum flagrante. Mas como ele não era um PM carioca, apenas me respondeu que a entrada era alguns metros na frente, e me ofereceu de nos acompanhar de motocicleta.

Uns minutos na tal trilha e confirmamos, estávamos no lugar certo. Entramos na fila enorme de carros tentando entrar no estacionamento, que pelo que eu entendi no mapa ficava a 1,5 km de distância da área do show (e para você não achar que cometi algum erro de digitação vou repetir por extenso: ficava a um quilômetro e meio do lugar do show). Não bastando isso, o estacionamento custava R$ 100,00 (isso, cem reais) mas apenas para carros com menos de quatro pessoas, com a justificativa de estimular as pessoas a não irem de carro, em nome da sustentabilidade e da construção de um planeta melhor e salvar as baleias, os pandas e o boto cor-de-rosa.

Movido a combustível fóssil sustentável

No que diz respeito a sustentabilidade eu preciso admitir que no caminho até o show encontramos vários geradores movidos a diesel, que todo mundo sabe que é um combustível fóssil sustentável para cacete. Sem mencionar na sensacional caçamba de coleta seletiva de lixo, cujo critério de selação parecia ser “se é ou parece lixo, joque aqui”, verde. Fazia sentido eles cobrarem mais caro para quem foi de carro, alguém tinha que sustentar toda aquela sujeira.

Descemos do carro, ansiosos para entrar logo no evento, mas não sem antes bebermos alguma coisa para esquentar. Muito fino, Bill havia comprado duas garrafinhas de malte, uma de scotch e outra de bourbon, que saboreamos animados, ainda no carro. Tiozão trocou sua camisetinha regata do Fluminense por uma camisa de mangas compridas, enquanto eu só pensava o quanto ainda teríamos que andar.

E andamos feito camelo de beduíno, mas conseguimos alcançar o lugar do show e até encontrar nosso lugar na frente do palco. Estava tudo certo para que a noite fosse de música e diversão. Assim esperávamos.

Quando chegamos estava rolando o show do Los Hermanos, mas eu desdenhei de com força. Primeiro porque não sou membro da igreja – sim, igreja, porque só um culto explica o fanatismo fundamentalista dos fãs – e segundo porque o Los Hermanos estava em “recesso”, mas já era o segundo $how que eu ia deles depois de anunciado o “recesso”.

Tomamos uma cerveja e fui ver o Mars Volta. Óbvio que o show foi sensacional, porque eles tocaram muitas músicas do primeiro disco (meu preferido), mas principalmente porque Cedric Bixler-Zavala nos brindou com o seu vasto repertório de dancinhas, e se tratando de dancinhas podemos dizer que Cedric é o herdeiro legítimo do rei das dancinhas insanas: Pete Townshend.

Tomamos mais uma cerveja e nos apinhamos mais na frente na expectativa do começo do show da noite. Dei uma palmadinha camarada no ombro do Tiozão, num gesto de profunda camaradagem, e quando fui fazer o mesmo com o Bill, olhei fundo nos seus olhos e vi algo que fez minha mente fazer um curto retrospecto daquele dia, e o pavor tomou conta de mim.

Recapitulando: ao longo do dia Bill tomou dois litros de chimarrão (que dizem ter tanta cafeína quanto o café). Quando paramos em Itaquaquecetuba, tomamos um café e Bill ingeriu dois comprimidos de guaraná em pó, que ele empurrou com uma lata de energético. Antes de entrar no evento, Bill tomou mais um energético.

Quando olhei no fundo dos olhos do meu amigo, dava pra ver as fagulhas da sua intensa atividade cerebral provocada pela cafeína, e eu tive muito medo.


Pequenas obsessões musicais

24/08/2011

Essa semana eu decidi tentar novamente percorrer a discografia do Caetano Veloso. Mas fui direto para o Prenda Minha e me joguei nessa música.

Ouvi Terra pela primeira vez, pasmem, no documentário sobre o Caetano. Desde então, eu conheci essa versão e hoje ela faz parte de um grupo específico de músicas, as músicas pelas quais eu tenho algum tipo de obsessão.

Explico. Existem algumas músicas que mexem comigo de tal maneira, que não consigo parar de escutá-las, e fico ouvindo em loop por inúmeras vezes até que alguma coisa me tire da inércia. Eu não saberia explicar porque isso acontece na maior parte dos casos, mas mesmo assim vou compartilhar algumas das minhas “músicas-obsessão”.

The Who – Baba O’Riley

Quando eu esbarrei com essa música num Rock Band, deixei o pessoal lá de casa meio enjoado, de tantas vezes que a música tocou. Foi graças a Baba O’Riley que eu decidi ouvir loucamente Who, e foi nessa que eu achei a minha segunda banda preferida no mundo.

Adele – Rolling in the deep 

Eu recomendei Adele a um monte de gente. Disse que o som era bacana e que ela cantava bem. Mas nunca consegui passar de Rolling in the deep. A música é a primeira do albúm, então eu dava play e ficava repetindo a exaustão a música.

Led Zeppelin – Tangerine 

Curiosamente, o Led Zeppelin fez alguns dos rock n’roll mais fantásticos da história da humanidade, mas é Tangerine que me faz ficar estático, olhando para o vazio, sem me preocupar que mil anos se passem.

Gilberto Gil e Jorge Ben – Filhos de Ghandi 

Do album Ogum Xangô. Gil e Ben soltos, tocando feito dois diabos versões acústicas de algumas de suas canções. Se você nunca ouviu esse disco, a sua vida inteira até aqui provavelmente não fez o menor sentido.

Rage Against The Machine – Sleep now in the fire 

Essa é fácil de explicar. O mehor riff de guitarra do RATM, e um dos melhores refrões. Quando tocou Sleep now in the fire no show do Rage que eu fui, eu achei que minha morte por infarto finalmente tinha chegado. Deu até teto preto, tamanha foi a minha possessão.

Pixies – Where is my mind 

Essa também é fácil. A música que encerrava Clube da Luta. Aquela cena final fantástica, que veio depois de uma das sequências mais bacanas que eu já vi no cinema. Clube da Luta merece um post só dele.

George Harrison – My Sweet Lord 

Eu sou ateu, mas se metade dos religiosos do mundo sacassem do que a música está falando, estaríamos num lugar melhor.

“Mas não tem nenhuma dos Beatles, Luquetucho?”.

Decidi escolher só uma música dos Beatles para essa lista. E como critério é claro, o justo é escolher essa:

The Beatles – I am the Walrus 

Como escapar dessa música?

Essa lista não acaba aqui, mas são essas músicas que me ocorrem agora. E você, tem alguma música pela qual você seja obcecado?


Salve Jorge

23/04/2011

Nesse dia 23 de abril, uma pausa para dar um salve para São Jorge. Santo tão responsa que a Igreja Católica não o cultua mais.

(Hoje também é aniversário do Jorge Ben. Eu estou me devendo um post sobre ele, com direito a grandes álbuns, grandes canções e um pouco de polêmica. Jorge Ben é o músico vivo mais importante da música popular brasileira.)

E para quem questionar meu ateísmo, uma dica: eu sou botafoguense, e ninguém que torce para o Botafogo é totalmente cético.


SWU é pra Jacu – parte 2

22/10/2010

(Se você chegou agora, começa por aqui)

Paramos em um dos 4.752 restaurantes Graal da Dutra e fizemos um pequeno almoço. Optei por carboidratos que me dariam energia para continuar a jornada, além de contribuir para manter minha péssima boa forma. Tiozão optou por uma mistura de saladas e carnes leves, com um pouco de carboidrato. Bill fez questão de experimentar o churrasco do lugar apenas pelo prazer de dizer, “não há churrasco como o do Sul”. O encontro com o caminhoneiro havia acendido a chama farroupilha no nosso amigo.

Na parada decidimos que, uma vez que não podíamos confiar plenamente em Sílvia, era melhor olharmos no Google mapas o melhor caminho para Itu, e quem sabe com sorte achar o endereço certo da tal fazenda Maeda. Conseguimos fazer Sílvia localizar o endereço do SWU e confiamos que dessa vez ela não nos trairía. Por via das dúvidas, programamos o GPS do celular do Tiozão para o mesmo destino, esperando assim que um pudesse confirmar o outro.

Só não paramos para pensar no que aconteceria exatamente se os dois aparelhos indicassem rotas diferentes. Mas já chego nesse ponto.

Cansado de se angustiar no banco do carona, Tiozão decidiu pegar a direção. Bill concordou de pronto, porque dessa forma teria as mão liver para continuar bebendo seu chimarrão. O calvo seguiu viagem firme, tranquilo e mais ágil do que imaginávamos.  Sem perceber cruzamos a divisa do estado e entramos em São Paulo, mas não sem antes desembolsarmos uma fortuna em pelo menos 37 postos de pedágio.

Seguimos animadamente pela estrada com Tiozão pilotando audaciosamente e desviando de dezenas de romeiros que peregrinavam para Aparecida do Norte. Sugeri que parássemos e testássemos a fé de um dos romeiros lhe oferecendo uma carona. Meus amigos me reprovaram, porque uma coisa é ser ateu, outra é ser espírito-de-porco. No fundo acho que eles não queriam correr o risco do romeiro aceitar e termos que carregar dentro do carro um sujeito que estava há pelo menos cinco horas caminhando sob o sol.

Enquanto eu arrumava minha mochila, na noite anterior, resolvi conferir a previsão do tempo para Itu no dia seguinte. Segundo o Climatempo a previsão era de céu nublado, mas sem chuvas, com máxima de 23º e mínima de 13º. Usei meus conhecimentos básicos de metereologia: a mínima normalmente é a temperatura registrada entre as 4 e 6 da manhã. A média entre 23 e 13 é 18º. Ora, não é uma temperatura que exija um casaco mais pesado. Vesti uma camisa de malha, colquei na mochila uma camisa de malha de mangas compridas e levei um casaco leve que eu tenho. Estava mais do que preparado para a temperatura prevista.

Eu só esqueci do diabo da “sensação térmica”.

Paramos o carro em Itaquaquecetuba, cidade famosa pelo seu nome impronunciável, porque Bill sugeriu que tomássemos um café. Ao descer do carro, minhas pernas se retraíram e meu queixo começou a tremer tanto que acho que quebrei um dos meus dentes. Ventava gelado lá fora e ainda era dia. Nos olhamos e sem que ninguém dissesse uma palavra pensamos a mesma coisa. No meio do mato, em Itu, provavelmente o frio seria ainda mais selvagem.

Entramos na simpática lanchonete dispostos a tomar um café e comer um lanchinho rápido. Eu pedi um capuccino, com muito açúcar. Bill, um café preto, forte e sem açúcar. Tiozão pediu um mocaccino com adoçante. Bill e eu nos olhamos desconfiados, Tiozão deu de ombros.

Enquanto eu tomava meu capuccino e comia um pão de queijo, olhei para a vitrine e me assustei com o que eu vi. Bill também viu e na mesma hora seus olhos brilharam. Estávamos diante do maior sonho que já havíamos visto. O pão era fino e aparentemente delicado, mas havia pelo menos meio quilo de creme recheando o sonho. Bill não se fez de rogado e pediu o sonho, eu senti minha taxa de glicose aumentar só ao vê-lo comendo a guloseima.

Ainda tomando café, decidimos perguntar a jovem que nos atendia se estávamos longe de Itu. “Itu? Não conheço. Conhece, fulano?” ela perguntou ao outro atendente. “Não sei onde fica não”. Pensamos

A foto não faz justiça

que tínhamos dado azar e perguntado para as pessoas erradas. Saímos da lanchonete e abastecemos o carro. Perguntamos a um dos frentistas se estávamos longe de Itu e ele não soube responder, mas balançou a cabeça negativamente, mas segundos depois o homem gritou um nome e ficou nos olhando como quem nos tranquilizasse.

Ao ouvir o grito, surgiu dos fundos do posto um homem baixo, de bigodes e feições rústicas. Falava com forte sotaque do Nordeste. “Pra onde cês vão? Itu? Fácil, meu filho. Siga aqui pela Carvalho Pinto até o fim, você vai sair na Ayrton Senna. Siga até o fim e você vai sair na marginal. Vá até o fim…”. As instruções eram claram e perfeitas. Olhávamos boquiabertos enquanto um nordestino ensinava aos forasteiros como andar pelo estado de São Paulo, humilhando sumariamente os paulistas que não souberam nos informar antes. Quando ele acabou de explicar, eu sabia quem eram os verdadeiros donos de São Paulo.

Enquanto o homem abastecia o nosso carro, Bill falou que a erva-mate do chimarrão tem 14 vezes mais cafeína que o café, e que depois de ter tomado seu litro diário de chimarão, estava na hora dele tomar um pouco mais do estimulante. Pegou no carro três latas de energético e uma embalagem de cápsulas de guaraná em pó. Se serviu de duas cápsulas e bebeu um gole grande de energético. Quando a latinha acabou, ele nos olhou com um sorriso enigmático. Repetimos o ritual do gaúcho, afinal não queríamos correr o risco de sucumbir ao cansaço durante o show. Um sinal de alerta acandeu na minha cabeça, mas eu o ignorei deliberadamente.

Antes de sair do posto cogitamos a possibilidade de vendermos Sílvia e pagarmos ao sujeito que sabia de fato o caminho para Itu. Foi Bill quem nos lembrou que iríamos sentir falta de uma voz feminina. Seguimos viagem com Sílvia, deixando para trás nossa maior chance de chegar e voltar da fazenda Maeda sem nos perder. Enquanto partia, fiquei de joelhos no banco de trás do carro, dando adeus ao nosso guia. Ele retribui com um sorriso afável e um aceno com a mão. Eu havia conhecido a esperança e a deixei num posto de gasolina no meio do caminho.

Cruzamos todas as rodovias mencionadas, entramos em São Paulo, passamos pela Marginal (Tietê? Pinheiros? Não sabíamos). Pagamos mais 21 pedágios e finalmente entramos na Rodovia que era nosso destino. Era só uma questão de olhar para os lados e ver as placas nos indicando como chegar no SWU. Andamos, andamos e andamos mais e nada de placa nenhuma. Estávamos no meio da estrada, de um lado escuridão e mato, do outro mato e escuridão. Começamos a questionar se estávamos no caminho certo. Eu era só temor no banco de trás, mas meus amigos pareciam calmos.

Até Sílvia, no meio daquela escuridão, dizer: “vocês chegaram ao seu destino”.


SWU é para Jacu – Parte 1

15/10/2010

A caravana saiu de Copacabana, base carioca do Bill Savannah. Parti de metrô, feito um pequeno escoteiro. Na mochila um casaquinho safado, duas garrafinhas de água e uma pequena porção de alimentos de primeira necessidade.

O básico

Encontrei o Bill no Zona Sul para o café da manhã. Na verdade, quando desci da estação Bill já havia feito o seu prato, mas por incrível que pareça, quando cheguei no mercado ele parecia num tipo de transe. Seu olhar parecia perdido e por mais que eu olhasse na direção, não entendia o que havia deixado meu amigo tão espantado. Cinco minutos depois, já comendo, me dei conta que estava sem óculos, e quando os coloquei tudo fez mais sentido.

Conversamos animadamente durante o café. Bill me falava como tem sido sua rotina e como havia sido o show da noite anterior. Eu estava mais preocupado em saber quando partiríamos. Bill parecia não ter pressa, e eu fazia questão de chegar na tal fazenda Maeda a tempo de ver o Mars Volta, mas o Tiozão do Rock sequer havia dado as caras, e não iríamos embora sem ele.

Café da manhã saudável

Terminamos o café e partimos para o apartamento do Bill. Por um instante achei que meu amigo estava patrocinando uma academia Gracie, tamanha era a quantidade de barras de proteína que achei lá. Mas como havia na mesma sacola barras de cereal das mais finas e isotônicos, fiquei mais tranquilo. O Bill faz uma dieta de isotônicos, chimarrão, barras de proteína e ceral, que só é quebrada aos domingos, dia de churrasco.

Finalmente o Tiozão chegou, e partimos. Tiozão veio trajando uma camiseta do fluminense e o indefectivel “courinho” no pulso. Não sei exatamente de onde diabos ele tirou aquele courinho, mas o sujeito se sente viril com aquela porcaria e o que é de gosto, regalo da vida.

Entramos no carro e calibramos o GPS para qualquer endereço de Itu. Nosso raciocínio era muito simples: Itu deve ser uma cidade de médio porte, mas assim que puséssemos os pés na cidade veríamos indicações de como chegar no tal evento. Além disso, temos um GPS fodão, que dá os mais variados mapas rodoviários, urbanos e astrais. Chegar em Itu era uma questão de tempo.

A viagem tinha tudo para ser fácil, nós só não contamos com a possibilidade de sermos sabotados pelo GPS.

Antes de sair de casa, alguém falou “linha vermelha” o caminho mais rápido e óbvio para a Dutra. Bill, como bom gaúcho, disse que não sabia como pegar a via expressa. Confiamos que o GPS (que a partir de agora será chamado de Silvia, aquela da música do Camisa de Vênus) nos daria o caminho certo. A confiança durou menos de quinze minutos. Distraídos conversando, mal reparamos quando Bill cruzou 11 pistas de uma só vez na Linha Vermelha e entrou na Linha Amarela, sem chances de retorno. Foi a primeira peça pregada por Sílvia.

Depois de muito rodarmos procurando uma maneira de voltar a Linha Vermelha, finalmente conseguimos seguir viagem. Já chegando na Dutra, Bill sacou a sua cuia e começou a beber seu chimarrão enquanto dirigia. Já vi o Bill tomando na cuia algumas vezes, mas Tiozão nunca tinha visto tal cena. Profundamente curioso, o careca pediu para dar um tapa na erva, e decidiu transformar o momento do Bill num ritual coletivo. A contragosto, bebi o chimarrão.

Tomando na cuia

Na fila do pedágio, um caminhão emparelhou com o carro e o motorista olhou fixamente para a cuia de Bill. Os dois trocaram sinais secretos, e quando vimos, Bill e o motorista do caminhão estavam abraçados cantando o hino do Rio Grande do Sul. Felizmente eu consegui ser sagaz e puxar Bill para dentro do carro antes que os dois acendessem a churrasqueira que inexplicavelmente surgiu da caçamba do caminhão. Quando voltou para o carro, Bill tinha um sorriso

Sobrou até para mim

arrogante nos lábios e diante da nossa cara de reprovação falou impávido, “gaúcho é melhor em tudo”.

Seguimos viagem com Bill dirigindo com um arrojo espetacular. Aproveitando a pista dupla e as curvas da Dutra, o sujeito empurrava o acelerador do carro até o fundo, como se não houvesse amanhã, ultrapassando e abrindo passagem. No banco do carona, Tiozão agarrou-se ao puta-que-pariu com tanta força que dava para ouvir o courinho esticando no seu pulso. A tensão foi tamanha que 3 fios de cabelo nasceram naquela cabeça luminosa, como por milagre. Só de olhar dava para saber que meu amigo estava tão tenso que mordia o banco do carro, e não era com os dentes.


Um discurso e uma pergunta

08/02/2010

“Mas é isso que é a juventude que diz que quer tomar o poder? Vocês têm coragem de aplaudir, este ano, uma música, um tipo de música que vocês não teriam coragem de aplaudir no ano passado? São a mesma juventude que vão sempre, sempre, matar amanhã o velhote inimigo que morreu ontem? Vocês não estão entendendo nada, nada, nada, absolutamente nada. Hoje não tem Fernando Pessoa. Eu hoje vim dizer aqui, que quem teve coragem de assumir a estrutura de festival, não com o medo que o senhor Chico de Assis pediu, mas com a coragem, quem teve essa coragem de assumir essa estrutura e fazê-la explodir foi Gilberto Gil e fui eu. Não foi ninguém, foi Gilberto Gil e fui eu!”

“Vocês estão por fora! Vocês não dão pra entender. Mas que juventude é essa? Que juventude é essa? Vocês jamais conterão ninguém. Vocês são iguais sabem a quem? São iguais sabem a quem? Tem som no microfone? Vocês são iguais sabem a quem? Àqueles que foram na Roda Viva e espancaram os atores! Vocês não diferem em nada deles, vocês não diferem em nada. E por falar nisso, viva Cacilda Becker! Viva Cacilda Becker! Eu tinha me comprometido a dar esse viva aqui, não tem nada a ver com vocês. O problema é o seguinte: estão querendo policiar a música brasileira. O Maranhão apresentou, este ano, uma música com arranjo de charleston. Sabem o que foi? Foi a Gabriela do ano passado, que ele não teve coragem de, no ano passado, apresentar por ser americana. Mas eu e Gil já abrimos o caminho. O que é que vocês querem? Eu vim aqui para acabar com isso!”

“Eu quero dizer ao júri: me desclassifique. Eu não tenho nada a ver com isso. Nada a ver com isso. Gilberto Gil (entrando no palco). Gilberto Gil está aqui comigo, para nós acabarmos com o festival e com toda a imbecilidade que reina no Brasil. Para acabar com isso tudo de uma vez. Nós só entramos no festival pra isso. Não é Gil? Não fingimos. Não fingimos aqui que desconhecemos o que seja festival, não. Ninguém nunca me ouviu falar assim. Entendeu? Eu só queria dizer isso, baby. Sabe como é? Nós, eu e ele, tivemos coragem de entrar em todas as estruturas e sair de todas. E vocês? Se vocês forem… se vocês, em política, forem como são em estética, estamos feitos! Me desclassifiquem junto com o Gil! Junto com ele, tá entendendo? E quanto a vocês… O júri é muito simpático, mas é incompetente.”

“Deus está solto!”

– Caetano Veloso, em meio às vaias no III Festival Internacional da Canção, 1968 –

*** *** *** ***

E afinal, éramos (ou somos ainda) em política como somos em estética?